O que não mudou com a pandemia?

Douglas André Roesler. Administrador, Professor Associado da Unioeste e Delegado da Seccional de Marechal Cândido Rondon. E-mail: douglasroesler@gmail.com

Estamos no futuro e o ano é 2040 e você está em frente a um grupo de universitários, a geração pós-Covid19, para falar sobre um marco na história contemporânea: a pandemia de 2020. Sua apresentação segue com dados sobre os impactos da pandemia na economia, nos empregos, nas empresas fechadas, reorganizadas ou transformadas, as novas oportunidades, a crise humanitária e o triste número de mortos. Em algum momento da suposta apresentação você contará o que fez nestes tempos sombrios. E então, como você encarou a pandemia?

A interpretação da realidade e como lidamos com as dificuldades são uma questão de perspectiva e postura. Você pode encarar tudo como um problema, uma tragédia, e ficar angustiado procurando os culpados, vitimizado, esperando que alguém o ampare. Ou você pode encarar este tempo de pandemia como um desafio, uma oportunidade para fazer diferente e se reinventar, se autoavaliar e buscar adaptar-se e se fortalecer. Também pode ser proativo e ajudar outras pessoas a superar este período de dificuldades. Esta postura corajosa, dinâmica, empreendedora e de liderança são características esperadas dos profissionais da administração.

As universidades e faculdades de administração ensinam e formam pessoas para identificar as oportunidades, as ameaças, os pontos fortes e fracos das organizações e traçam os planos de ação no presente vislumbrando sucesso no futuro. São eles que comunicam, motivam e inspiram seus colaboradores e demonstram qual estratégia adotar e o trabalho a ser realizado. Os administradores são líderes que fazem a diferença onde atuam, são transformadores da realidade em que estão inseridos. Para os administradores a pandemia é mais um desafio, assim como outros que já foram e outros que virão.

A pandemia foi algo imprevisto e causou uma antecipação de tendências. Os sistemas digitais de comunicação para reunião e ensino, trabalho em casa, entregas em domicílio, comércio eletrônico são meios e tecnologias que já existiam, umas há muito tempo. Muitas pessoas e empresas hesitavam em adotar estas tecnologias, e, com a pandemia tiveram que se adaptar para não perder seus clientes ou não ficarem desempregadas. Por exemplo, em poucos dias os gestores e professores das escolas transformaram a forma e a estrutura de ensino e sua relação com os alunos e pais.

A pandemia foi uma variável do ambiente externo que impactou no planejamento e nas estratégias empresariais. Mas se a empresa já estava com problemas econômicos e financeiros, a pandemia foi o último empurrão para o abismo da falência ou inviabilidade. Isto demonstra a necessidade de buscar prever o imprevisível ou improvável. Precisamos ter um plano alternativo para as empresas e para a nossa vida. A pandemia fez com que muitas pessoas percebessem sua finitude e fragilidade.

Nesta época ocorrem muitos relatos de problemas psicológicos e sociais, como ansiedade, alcoolismo, violência doméstica, separações e divórcios. Provavelmente estes problemas já existiam e agora utiliza-se a pandemia como desculpa para o fim de uma relação ou a causa de uma tragédia. A pandemia colocou em evidência a triste realidade brasileira dos milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, do desemprego, da saúde pública precária e de alguns políticos oportunistas preocupados apenas com os resultados das próximas eleições. Além daqueles políticos e gestores que se aproveitam da calamidade pública e social para adquirir materiais e equipamentos médicos superfaturados.

Mesmo parecendo um passado distante, não podemos perder a referência de março de 2020, onde a nossa vida e trabalho estavam atribulados com problemas e desafios a serem resolvidos, superados ou procrastinados. A pandemia mexeu com as pessoas e este movimento, ou desequilíbrio, pode ter revelado uma pessoa acomodada, sem perspectiva e sem projeto de vida. Não podemos usar a pandemia como desculpa para nossa preguiça ou incapacidade de encarar a realidade. Somos os protagonistas da nossa vida, depende apenas de nós mudar a situação e aquilo que nos afeta. Não é salutar terceirizar a culpa para a pandemia.

Depois desta pandemia teremos outras crises e dificuldades. Uns até profetizam que teremos outras pandemias. Importante aproveitar as experiências para nos aprimorarmos enquanto profissionais e pessoas. Existe uma expectativa que esta situação tornará as pessoas melhores, mais solidárias e sensíveis as questões sociais. Gostaria de acreditar nisso, mas tudo indica que depois da pandemia as pessoas tendem a voltar ao que são, ou seja, aqueles que são egoístas, hipócritas e arrogantes tendem a continuar do mesmo jeito. As pessoas que são sensíveis à condição do próximo continuarão seu trabalho em contribuir para um mundo melhor, mesmo depois da pandemia.

Já diz o ditado: mar calmo não faz bom marinheiro. Frente aos desafios e impactos decorrentes da pandemia que se afirmam e forjam os melhores administradores e empreendedores. Pessoas que não se abatem com a crise e buscam criar, antecipar ou aproveitar as oportunidades. São pessoas resilientes, flexíveis, criativas e com grande capacidade de adaptação. Em vez de lamentarem com as dificuldades e problemas, buscam força, energia e motivação para trabalhar em seus projetos. E isto não mudou com a pandemia.

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