Formar profissionais do futuro com professores do presente

ABMES • 24 de janeiro de 2020

Por: Carmen Luiza da Silva

Uma breve volta ao passado nos mostra o quanto o homem é capaz de superar as barreiras da sua própria evolução rumo a um futuro que, embora seja desconhecido, nos permite fazer previsões importantes, nos prepararmos para as mudanças e principalmente sermos os protagonistas das transições. A cada período o homem promove avanços em busca de qualidade de vida desenvolvendo tecnologias cada vez mais sofisticadas.

Da Revolução Agrícola à Revolução 4.0 na qual estamos imersos, o ser humano promoveu transformações objetivando a perpetuação e sobrevivência da espécie. E desta forma, os incrementos tecnológicos foram sendo criados na mesma medida em que novas necessidades surgiam. Todo o conhecimento acumulado sempre foi pautado pela busca de solução de problemas que por sua vez, induzem a novas necessidades e num processo contínuo de inovações, os avanços tecnológicos criados pelo próprio homem nos levam a próxima revolução. A expressão americana VUCA WORLD traduz as incertezas deste mundo volátil em que nada está sob controle, tão incerto que é impossível fazer previsões absolutamente acertadas, tão complexo e com tantas variáveis que dificultam a tomada de decisões e por sua ambiguidade a capacidade de escolha é posta à prova quase que como um ato de coragem!

Novas economias surgem apontando para uma visão de compartilhamento, de redução de esforços e instâncias entre o que se necessita e sua aquisição, de uma consciência ética focada na sustentabilidade. O conhecimento tornou-se um fator decisivo para a sobrevivência das organizações e a matéria prima da carreira profissional dos indivíduos. O conhecimento é polissinodal, está em todos os lugares, mas não é apenas um espaço de acúmulo de dados e informações no cérebro das pessoas e sim um espaço articulado da sua aplicabilidade como promotor da mudança de comportamento na sociedade. Harari define o paradoxo do conhecimento como transformador e impulsionador de mudanças dizendo que “conhecimento que não muda comportamento é inútil. Mas aquele que muda o comportamento perde rapidamente a relevância”. (HARARI, 2016)

Rui Fava, em uma brilhante analogia com o passado identifica nesse cenário, a volta ao Iluminismo em uma roupagem contemporânea, no qual as luzes recaem sobre o ser humano em detrimento das máquinas. (FAVA, 2018)

Então, o ser humano se volta para a sua singularidade buscando valorizar aquilo que em que “ainda” não foi substituído por máquinas, suas emoções e o comportamento gerado por elas. As empresas passaram a considerar o perfil socioemocional de seus contratados. As hardskills (competências e habilidades técnicas) antes eram suficientes para a ocupação de postos de trabalho que agora demandam primordialmente softskills (competências e habilidades comportamentais) que determinam habilidades de relacionamento. Departamentos de recursos humanos utilizam testes capazes de definir perfis para selecionar candidatos com as competências adequadas para cargos e desenvolvimento de projetos nas organizações. Surgem novas áreas da psicologia focadas no comportamento humano, como a psicologia positiva que trabalha com os aspectos positivos das emoções e comportamentos. Também o setor educacional se volta para o desenvolvimento efetivo de competências e habilidades por meio de currículos e metodologias de aprendizagem que promovam na formação dos estudantes o perfil profissional generalista em detrimento do especialista. Profissionais com capacidade de síntese e visão sistêmica, mas acima de tudo com atitude proativa, curiosa e orientada ao aprendizado permanente caracterizada por pessoas com mindset de crescimento.

Isso nos remete a uma reflexão: Estariam os professores preparados para ensinar e desenvolver competências? Não seria preciso primeiro desenvolver em si próprios tais comportamentos para serem capazes de ensiná-los? E mais, é possível aprender rapidamente determinada competência ou esse é um processo que se desenvolve ao longo da vida?

É possível avaliarmos facilmente as competências técnicas e profissionais desenvolvidas pelo indivíduo, pois pela repetição da prática, raciocínio logico e pensamento crítico, ele comprova a sua eficácia em solução de problemas complexos. Mas desenvolver as competências interpessoais, hodiernamente requeridas é um pouco mais complexo, ainda que possível. Requer do indivíduo o “saber ser” contido em competências pessoais para que se desenvolva o “saber conviver” das competências interpessoais e sociais. São comportamentos moldados ao longo da vida com forte influência do meio familiar, escolar e social.

A inteligência emocional, popularizada pelo psicólogo norte americano Daniel Goleman (1995), diz respeito a capacidade do indivíduo de gerir suas próprias emoções e relacionamentos. Aliada à inteligência social difundida pelo mesmo autor (2006), dá margem a uma nova maneira de pensar sobre a aptidão humana para o relacionamento. Articuladas, temos a inteligência socioemocional como base estruturante das competências demandadas na atualidade, as chamadas soft skills. Conforme a área de atuação essas competências podem variar na sua ordem de importância, mas as organizações de desenvolvimento de carreira, destacam como sendo as mais relevantes, a comunicação, a liderança, a negociação, a resolução de problemas complexos, a flexibilidade e resiliência, o trabalho em equipe, a criatividade, a empatia, a proatividade, o pensamento crítico, a resolução de conflitos, a tomada de decisão e a ética.

As competências são aprendidas em ação e desenvolvem-se de forma progressiva no enfrentamento de situações complexas. Desenvolvem-se de forma articulada e interdependente. Para tanto é preciso que haja algum tipo de recurso a ser mobilizado, entendendo recurso como conteúdo, informações, esquemas cognitivos, experiências e até mesmo competências já estabilizadas. É preciso inserir nos currículos a premissa do desenvolvimento socioemocional e fortalecer o papel do professor, como mediador da aprendizagem. Neste sentido, a metodologia de ensino é determinante para que escolas e universidades possam desenvolver competências em seus estudantes, sejam elas cognitivas ou socioemocionais.

Para que a aprendizagem seja efetiva é preciso que haja o envolvimento do estudante e a prontidão para a aprendizagem, que acontece a medida em que a temática e o contexto se traduzem de forma relevante ao aprendiz. Segundo Moran, “ a aprendizagem é ativa e significativa quando avançamos de níveis mais simples para mais complexos de conhecimento e competência em todas as dimensões da vida”(Bacich e Moran, 2018). Assim, o aprendizado se dá quando faz sentido para a pessoa gerando conexões cognitivas e emocionais. Emoções são, portanto, a chave para a valorização do conhecimento e o despertar da curiosidade do aprendiz. Conforme a competência a ser desenvolvida, a escolha da metodologia a ser aplicada requer também do professor as competências específicas e o conhecimento necessário para sua aplicabilidade, condições de avaliação e mensuração do processo de aprendizagem. A utilização de metodologias ativas nos espaços escolares e universitários requer uma decisão institucional para que os professores tenham o suporte tecnológico e formação adequados. Isoladamente, fora de um contexto curricular, a aplicação de metodologias ativas se fragmenta e corre o risco de não atender à proposta pedagógica e aos objetivos de aprendizagem.

Vivemos um momento de intensa transição em todas as esferas da vida humana. É preciso adequar as instituições de ensino a esse movimento o quanto antes e encarar o grande desafio de formar profissionais para o futuro com os virtuosos professores do presente.











Artigo publicado pela ABMES, no dia 24 de janeiro de 2020, no endereço eletrônico https://blog.abmes.org.br/formar-profissionais-do-futuro-com-professores-do-presente/


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