EaD, parte 3: universitários apontam diferenças entre versões à distância e presencial do mesmo curso

O Globo • 31 de outubro de 2019

Silêncio da casa de um lado, troca de experiência de outro são Silêncio da casa de um lado, troca de experiência de outro são algumas das vantagens e desvantagens das modalidadesalgumas das vantagens e desvantagens das modalidades.

Por: Bruno Alfano e Paula Ferreira

RIO e BRASÍLIA — Paulo César Nogueira Cabral, de 56 anos, e Isabela Andrade Barros, de 21, poderiam ser colegas de classe. Ambos são alunos do 7º período de Contabilidade na Universidade Estácio de Sá. Mas ele decidiu estudar na sala de casa. Ela, na sala de aula. E, por motivos diferentes, cada um está satisfeito com as suas escolhas — que eles explicam no 3º dia da série de reportagens de O GLOBO sobre educação à distância (EaD).

No setor privado , alunos de educação à distância (EaD) já são maioria em metade das formações universitárias em que os estudantes podem optar entre o modelo presencial e o on-line. Há cinco anos, apenas 21% dessas carreiras tinham mais alunos estudando fora do que dentro das salas de aula tradicionais.
O dado ilustra a explosão da modalidade, que tinha apenas 60 mil graduandos em 2004 e passou a quase dois milhões de matrículas no ano passado — 24% dos alunos no país. Além disso, em 2018 houve, pela primeira vez, mais oferta de vagas à distância (7,1 milhões) do que presencial (6,3 milhões).

— Pela minha idade, com a garotada em volta, aquele burburinho na sala de aula acabaria me atrapalhando — conta o servidor público Paulo César: — Separei um lugar na minha casa só para estudar. Gosto do silêncio.

Já Isabela, logo após terminar o ensino médio, decidiu seguir no modelo tradicional justamente pela necessidade de socialização.

— Não tinha muita experiência quando saí da escola. Avaliei que na faculdade teria contato com professores e alunos com maior vivência no mercado. Isso de fato aconteceu e estou aproveitando ao máximo — conta a jovem, que hoje trabalha em uma multinacional de auditoria.

Os benefícios, porém, vêm com uma dose de sacrifício. A distância do Centro até a unidade de Jacarepaguá dura uma hora e meia de ônibus. Depois, mais 35 minutos para chegar em casa, também no coletivo.

— Escolhi estudar de noite desde o início porque me facilitava conseguir estágios — diz Isabela, que faltou algumas aulas no começo do ano quando conseguiu o novo emprego: — Justifiquei, no entanto, todas as ausências. Fiquei pegada no trabalho, mas agora já consegui organizar meus horários.

Já formado em Administração, em curso presencial, Paulo César, por sua vez, consegue distribuir o horário do modo que lhe é mais conveniente. Prefere cursar apenas uma disciplina por vez — com dedicação total entre dez e 15 dias até fazer a prova. É o momento em que precisa comparecer presencialmente ao polo da Ilha do Governador.

— Estudo seguindo as aulas disponibilizadas, lendo a bibliografia e os textos disponíveis. Além disso, a faculdade tem um sistema com questões simulando uma prova para testar o conhecimento. Faço até 700 exercícios de uma única disciplina — afirma.

Quando não se sente bem ou está ocupado demais, Paulo César não cabula aulas: simplesmente não abre as disciplinas e mesmo assim não perde os conteúdos. Ele só precisa compensar o tempo de estudo nos próximos dias.

— Faço minhas aulas em tudo quanto é horário. Hoje, por exemplo, comecei a estudar de manhã e devo voltar à noite. Estudo um pouco, faço minha ginástica, cumpro as minhas tarefas, volto para casa e estudo um pouco mais. Às vezes, estou estudando, a cabeça esquenta demais e dou uma paradinha para voltar outra hora — explica.

Isabela não vê tanta vantagem assim. Para ela, a sala de aula traz benefícios que valem o deslocamento.

— Em contabilidade, a gente mexe muito com contas. Na sala de aula, o professor usa um data show, abre um programa como o Excel e a gente vai acompanhando o uso das fórmulas. Isso me ajudou demais a entender a prática — avalia a estudante.

Pesquisa de qualidade

Uma compilação de dados do último ciclo de Pedagogia do Enade, realizado em 2017, feita pelo doutor em Educação pela PUC Adriano Coelho, mostrou que 32% dos 10.055 cursos presenciais foram “reprovados”. Ou seja, obtiveram conceito 1 e 2. Já no ensino à distância, o percentual foi de 44% dos 516 cursos avaliados.

O próprio pesquisador alerta, no entanto, que a análise do desempenho dos estudantes é a que mostra um cenário mais próximo da realidade.

Os mais de 10 mil cursos presenciais avaliados no último Enade concentraram 63.580 alunos, enquanto os cursos de EaD registraram 69.170 estudantes. Com esse recorte, a diferença de desempenho entre os dois modelos se alarga, com 29% dos alunos do presencial reprovados versus 62% no modelo à distância.

Conteúdo denso e apoio ao aluno

O curso à distância não é nem deveria ser pior do que o presencial apenas por conta de sua natureza. Essa é a avaliação de uma série de especialistas ouvidos por O GLOBO. Eles apontam o apoio ao aluno e a exigência de um conteúdo denso como fatores primordiais para garantir a qualidade dos cursos.

— Tem que ter tutores disponíveis aos alunos, de forma presencial e on-line, e conteúdos de qualidade. Isso garante o bom desempenho dos estudantes e também que eles não abandonem o cursos. Como Secretário Nacional de Educação à Distância, encontrei muitos cursos com materiais muito superficiais — afirma Carlos Eduardo Bielschowsky, que ocupou o cargo entre 2006 e 2010: — O problema não é da modalidade. Sou um defensor dessa ferramenta. Nas universidades públicas, as avaliações são ótimas. A UFRRJ, por exemplo, só tem um curso com conceito máximo no Enade, que é o de Administração à distância.

Na avaliação de Paulo Presse, da Hoper Educação, uma das explicações para evasão maior na educação à distância é o perfil do estudante, com menos tempo disponível, combinado a um tipo de aprendizado específico.

— O aluno da EaD é mais velho, trabalha mais, precisa da disponibilidade do tempo. É um curso que exige alta organização e motivação, isso torna mais complicado o processo do aluno dentro da estrutura da aprendizagem. Por isso, esse aluno precisa de maior acompanhamento — diz ele, que defende que as instituições de ensino desenvolvam programas de retenção do estudante, com tutorias ou aulas extra de reforço.

Para o pesquisador Adriano Coelho, diversos fatores devem ser levados em consideração para melhorar a qualidade dos cursos.

— É uma soma de variáveis, como uma seleção melhor de ingressantes e a realização de programas de nivelamento que coloquem este aluno em condições de acompanhar os estudos, além de sistemas de avaliação bem regulados. Também seria positivo a promoção de maior interatividade através de tutorias bem construídas — avalia.

Membro da Associação de Ensino à Distância (Abed), Luciano Sathler defende que determinados cursos à distância não podem abrir mão de aulas práticas em laboratórios.

— Cursos das áreas de Saúde ou as engenharias precisam garantir aos alunos acesso a laboratórios presenciais. Eles devem estar disponíveis com acompanhamento de tutores. Não há condições de preparar um aluno nessas áreas inteiramente à distância — afirmou o especialista








Notícia publicada pelo O Globo, às 04h30, no 31 de outubro de 2019, no endereço eletrônico https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/ead-parte-3-universitarios-apontam-diferencas-entre-versoes-distancia-presencial-do-mesmo-curso-24052331


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