Formação de professor é dominada por alunos na educação à distância

O Globo • 30 de outubro de 2019

A cada três estudantes de Pedagogia no Brasil, dois (65%) fazem o curso à distância

Por: Bruno Alfano

RIO — A cada três estudantes de Pedagogia no Brasil, dois (65%) fazem o curso à distância . Além disso, todas as licenciaturas da rede privada têm mais alunos estudando pelos computadores e apostilas do que nas salas de aulas — inclusive em Educação Física. Esse é o cenário da formação de professores no país, tema da segunda reportagem da série sobre EaD que O GLOBO publica desde ontem.

No setor privado , alunos de educação à distância (EaD) já são maioria em metade das formações universitárias em que os estudantes podem optar entre o modelo presencial e o on-line. Há cinco anos, apenas 21% dessas carreiras tinham mais alunos estudando fora do que dentro das salas de aula tradicionais.

O dado ilustra a explosão da modalidade, que tinha apenas 60 mil graduandos em 2004 e passou a quase dois milhões de matrículas no ano passado — 24% dos alunos no país. Além disso, em 2018 houve, pela primeira vez, mais oferta de vagas à distância (7,1 milhões) do que presencial (6,3 milhões).

— A situação é preocupante. A formação de professor via EaD precisa ser uma exceção e não a regra: — avalia Caio Sato, coordenador do núcleo de Inteligência do Todos Pela Educação: — Formar um bom professor é como formar um bom médico ou um bom engenheiro. Precisa de prática. Boa parte das formações presenciais também pecam por isso, mas é a partir delas que a gente enxerga um professor melhor formado.

A posição do especialista, no entanto, não é unanimidade. Diretor de Desenvolvimento Científico da Associação Brasileira de Educação à Distância (Abed), João Mattar afirma que o curso de Pedagogia à distância traz benefícios diferentes ao futuro professor.

— Os cursos presenciais formam pouco o professor para utilizar tecnologia em sala de aula. Na EaD, ele já está sendo preparado para isso pela própria natureza da formação. Além disso, o aluno à distância é mais autônomo porque precisa estudar sozinho e passa isso melhor para os seus futuros estudantes — afirmou Mattar: — E boa parte dos alunos à distância não conseguiria fazer o curso presencial. Ou porque moram em locais distantes de universidades ou por não conseguirem pagar.

Aulas presenciais

Michelle Felizardo, de 38 anos, é uma dessas professoras que não se formariam sem a possibilidade de estudar à distância. Ela cursou licenciatura em Biologia pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), por meio do Cederj no posto de Itaocara, no Noroeste do Estado. A graduação era à distância, mas previa que ela estivesse presencialmente em uma série de aulas práticas.

— Eu moro na zona rural de Laranjais. Para chegar ao polo, precisava andar por três quilômetros (cerca de 35 minutos) e pegar uma carona até o posto porque eu não tinha dinheiro para o ônibus. Até em ambulância eu já peguei carona — conta.

Sem internet em casa, muito menos computador, ela aprendeu a maior parte do curso pelas apostilas. Hoje dá aulas no curso que a formou.

— Na época da faculdade, eu morava com a minha vó e cuidava dela, que tinha Alzheimer. Hoje eu posso dizer que sou rica, em comparação à situação que a gente vivia. Para você ver: o sonho da minha vó era comprar um guarda-roupa. Quando eu ganhei meu salário, fui lá e comprei dois para ela — diz Michelle, que se formou em 2008, passou em três concursos e perdeu a avó há dois anos.

Nem todos os cursos têm aulas práticas como o de Michelle — não há essa exigência na legislação. Valéria Maddi, de 53 anos, faz Pedagogia na Estácio de Sá e gosta do curso. No entanto, as únicas tarefas presenciais que precisa cumprir são provas e três estágios.

— A faculdade não é ruim. O problema é o descrédito pelo valor que eles cobram. A faculdade é desacreditada. Eu não acho o curso ruim — defende a moradora da comunidade de de Beira-Rio, entre o Recreio e Vargem Grande, que estava há 28 anos sem estudar antes de se matricular: — Mais para frente eu acho que vou sentir falta de aulas práticas. Mas vejo que o estágio vai compensar, e a faculdade tem um banco de oportunidade que ajuda a encontrar.

Mínimo presencial

Claudia Costin, ex-diretora de Educação do Banco Mundial, também vê com preocupação a proliferação das matrículas de Pedagogia, maior curso EaD do país com 440 mil alunos.

— A formação do professor tem que ter vivência. Ninguém formaria um médico ou um neurocirurgião à distância. A lógica é a mesma — afirma Costin: — Idealmente, não poderia ter Pedagogia EaD. No máximo, ter a parte teórica.

Países como Chile, México e Peru proíbem a formação de professores EaD. No Brasil, se discute a obrigação de uma carga horária mínima presencial para os cursos de formação de professores.

A tese foi apresentada por Claudia Costin e pelo Todos Pela Educação ao Conselho Nacional de Educação (CNE) na formulação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores, texto que definirá o que se espera de um docente recém-formado. Ela ainda não está incluída no documento, que segue na fase de debates e consulta pública

Outra sugestão do Todos Pela Educação é uma prova de certificação de professores no fim da universidade.

— Seria um mecanismo importante para garantir a qualidade. Uma avaliação que levaria em conta uma parte escrita e outra mensuração prática — afirma Caio Sato, do Todos Pela Educação.

A regulação do setor, no entanto, encontra resistência. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, defende uma autorregulação proposta pelas próprias universidades privadas. Luciano Sathler, membro da Abed, também é contra.

— Me parece um contrassenso. Estamos falando de uma profissão pouco valorizada, não tem salário adequado e encontra estrutura de trabalho muito ruim. Os alunos com melhores notas do Enem não escolhem Pedagogia mesmo tendo vocação porque não enxergam futuro. Precisa valorizar a profissão antes com melhores salários para proferes que apresentem os melhores resultados — afirmou Sathler.


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