Na rede privada, metade dos cursos com opção EAD já tem mais alunos à distância do que no presencial

O Globo • 29 de outubro de 2019

O GLOBO começa série de reportagens sobre diferentes aspectos da modalidade ouvindo alunos, professores, especialistas no tema e atores do mercado

Por: Bruno Alfano

RIO — No setor privado , alunos de educação à distância (EaD) já são maioria em metade das formações universitárias em que os estudantes podem optar entre o modelo presencial e o on-line. Há cinco anos, apenas 21% dessas carreiras tinham mais alunos estudando fora do que dentro das salas de aula tradicionais.

O dado ilustra a explosão da modalidade, que tinha apenas 60 mil graduandos em 2004 e passou a quase dois milhões de matrículas no ano passado — 24% dos alunos no país. Além disso, em 2018 houve, pela primeira vez, mais oferta de vagas à distância (7,1 milhões) do que presencial (6,3 milhões).

Por isso, O GLOBO começa hoje uma série sobre os diferentes aspectos da modalidade — ouvindo alunos, professores, especialistas no tema e atores do mercado —, para abordar contribuições e prejuízos que a EaD pode trazer ao ensino superior. Apesar do crescimento, alguns cursos, como Direito, ainda não são oferecidos à distância.

— Esse aumento tem um fundo social — opina Luciano Sathler, membro da Associação Brasileira de Educação à Distância (Abed).

Para o especialista, o Brasil ainda tem uma demanda não atendida por educação superior. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 21% dos brasileiros entre 25 a 34 anos têm diploma universitário. A média dos países ricos é de 44%. Pesquisa da Abed afirma que 76% dos alunos de graduação à distância têm entre 26 e 40 anos.

— Essas pessoas já têm família, emprego, se formaram no ensino médio há muito tempo. Nesse contexto, a EaD aparece com preço acessível e facilidades como a flexibilidade — afirma Sathler.

Flexível e acessível

Para o especialista, o Brasil ainda tem uma demanda não atendida por educação superior. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 21% dos brasileiros entre 25 a 34 anos têm diploma universitário. A média dos países ricos é de 44%. Pesquisa da Abed afirma que 76% dos alunos de graduação à distância têm entre 26 e 40 anos.

— Essas pessoas já têm família, emprego, se formaram no ensino médio há muito tempo. Nesse contexto, a EaD aparece com preço acessível e facilidades como a flexibilidade — afirma Sathler.

Com apenas R$ 1 mil mensais e uma estrutura rígida de organização de estudos, o morador de Araras Wagner Baldo, de 35 anos, consegue fazer seis graduações à distância ao mesmo tempo.

— Faço um planejamento. Cada dia da semana estudo para um curso. O fim de semana deixo para a Matemática, pois me exige muitos exercícios.

Baldo já se formou, via EaD, em licenciatura de História e em Ciências Contábeis. Atualmente, faz bacharelado em Matemática, Geografia e História, além dos cursos de Ciências Econômicas, de Tecnologia em Empreendedorismo e de Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

— Pretendo empreender. Portanto, utilizarei bastante do conhecimento de algumas dessas graduações. Em relação a História, Matemática e Geografia, fiz e faço por gostar dessas áreas de estudo, mas também podem servir para dar aula em escola estadual caso eu precise financeiramente.

Segundo Sathler, membro da Abed, além de preços acessíveis (custo médio entre R$ 250 e R$ 500 mensais) e alta demanda, contribuíram para a expansão do setor um novo marco regulatório, instituído em 2017 pelo governo Temer, que facilitou a criação de polos e liberou instituições a oferecer exclusivamente cursos à distância.

— E também a popularização da tecnologia. Agora mais pessoas têm acesso e familiaridade para assistir a um vídeo ou ler um texto pelo telefone — aponta Sathler.

Pouca oferta pública

Enquanto as universidades privadas crescem exponencialmente, as públicas patinam. As particulares praticamente dobraram o número de alunos em cinco anos. Já as matrículas nas federais praticamente não se alteraram e ficaram em torno de 93 mil. As estaduais conseguiram, proporcionalmente, aumentar sua participação: de 46 mil para 77 mil. Houve também a diminuição da oferta de instituições municipais, que chegaram a ter 15 mil alunos, em 2013, e acabaram com pouco mais de mil, em 2018.

— O financiamento da Universidade Aberta do Brasil (UAB, criada para gerir os cursos públicos à distância no país), nos últimos anos, tem sido inconstante. Quando surgiu, em 2005, houve grande adesão de universidades, mas isso precisa de recursos — avalia o ex-secretário Nacional de Educação à Distância Carlos Eduardo Bielschowsky, que ocupou o cargo entre 2006 e 2010.

Segundo ele, a perspectiva na época era dobrar o número de universitários no país, mas esse aporte não foi contínuo.

— O curso é muito bom porque usa a estrutura da universidade. Mas alguns anos não tiveram editais para novas turmas — afirmou Bielschowsky.

O Brasil tem uma única universidade pública totalmente voltada para o ensino à distância: a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). Já no Rio, onde um a cada quatro universitários faz EaD, há um consórcio de instituições, chamado Cederj, que oferece os cursos por meio de entidades como UFRJ e Uerj.

Como funciona

Os cursos à distância também têm atividades presenciais. Provas finais, trabalhos de conclusão de curso e estágios são, usualmente, realizados presencialmente — mas, segundo Luciano Sathler, isso não é uma obrigação da legislação. As unidades mantêm polos com tutores aos quais os alunos podem recorrer.

Uma pesquisa da Abed com 259 instituições de ensino superior à distância aponta que a ferramenta mais utilizada é a videoaula: 92% dos cursos utilizam esse recurso. Ela é seguida de textos digitais (83%) e e-books (81%). Recursos mais interativos, como simulações e jogos, ainda são pouco utilizados, apenas em 45% e 34% dos cursos, respectivamente.

— A universidade nos entrega apostilas todos os semestres. Fora isso, cada matéria tem as suas respectivas aulas em vídeo, apostilas e textos em PDF na plataforma digital — conta Fátima (nome fictício), de 45 anos, uma mulher transexual moradora de Senador Canedo, interior de Goiás, que pediu para não se identificar por temer sofrer preconceito na cidade onde vive há poucos anos.

A estudante é casada, tem um filho adolescente e cursa a licenciatura em Geografia, 20 anos depois de trancar a matrícula na Federal de Goiás. Na época, não suportou “perseguições e discriminações”:

— Faltava apenas um ano pra eu me formar quando abandonei. Completar é questão de honra. Num curso EaD não encontro essas barreiras. Somos nomes e números de matrículas que estudamos e fazemos provas.


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