Empreendedorismo de palco (e de rede social): nem tudo que reluz é ouro

ABMES • 24 de outubro de 2019

Por: Liana Merladete

Nos meus estudos e prática profissional, eu tenho sido até insistente ao destacar que, ao meu ver, escutamos, falamos, vemos e sentimos, não como outrora, mas sobretudo devido a estarmos todos conectados, o tempo todo. Seguimos, curtimos e compartilhamos – adoramos e refutamos também – causas, pessoas, ideias e muitos mais, afinal.

Eu já disse aqui, na minha dissertação, na época do mestrado, para alunos ou clientes que não são mais só as notícias na seara da Tecnologia da Informação e da Comunicação – e também não são mais, há muito, somente os profissionais dessas áreas – que apontam o crescimento e o impacto constantes das redes sociais virtuais. Ou melhor, a revolução delas, oriunda de um enorme emaranhado que pulsa em torno da magnitude da internet, da navegabilidade, interatividade, usabilidade, funcionalidades e muito, mas muito mais, que ela propicia.

Fato é que parte das pautas veiculadas nas próprias redes sociais virtuais e mídia tradicional legitimam a ideia de que sim, no mundo globalizado, a internet e, por conseguinte, suas faces, produtos e serviços relacionados, inclusive na educação, assumiram um papel preponderante na vida e convivência dos cidadãos. E mais: para e nas organizações de todos os nichos. E, claro, para e sobre pessoas, agora protagonistas.

E, nesse contexto todo, eu – e você, também possivelmente, questiono várias coisas. No meu caso, confesso, tem assuntos que ficam martelando na minha cabeça: o papel desses softwares de redes sociais com elevada audiência, e dos próprios dispositivos, seja no e pelo contexto político, social e econômico, como também a sua utilidade no âmbito educacional, no corporativo, seu significado, pontos fortes, fracos e por aí vai.

Mas eu acho mesmo é que, de tudo e tanto, uma coisa chamada escassez múltipla do tempo, potencializa essa inquietação e até a busca, nesses ambientes, de pessoas como referências. Essa coisa toda de estarmos online, as talvez não erradas concepções que apontam que oportuna ou perigosamente, (des)humanizamos relações me levam a crer que não propriamente na aldeia global que McLuhan (1969) esperava, mas onde a internet é indicador, senão fator vital, para a mudança nas formas de relações, acadêmicas ou comerciais, a web que Castells (2003) disse ter, justamente, transformado o modo como as pessoas se comunicam, revelou uma nova dinâmica.

E daquilo que é fantástico de tudo e tanto como as plataformas de colaboração, o nascimento de novos negócios e muito, mas muito mais, uma coisa – infelizmente – me irrita – ou indigna, para ser sincera: a linha entre o conhecimento credível e o superficial é muito tênue.

E eu acho que esse espaço, o que fica bem entre o revolucionário e o aproveitador, deu lugar para uma questão até já debatida mas que, me parece, ainda é tema emergente e urgente: o empreendedorismo de palco. E, agora, como não poderia deixar de ser, sua extensão nas redes.

Numa sociedade em que carecemos muito mais de mentorados, já que desenvolvimento é necessidade, não param de surgir mentores. Isso não deve estar certo. Eu me pergunto onde foi parar a nossa humildade. Por qual motivo tanta gente tem achado que pode somente ensinar e não mais aprender? Por qual motivo há tantos gurus na internet? A imensa maioria deles têm vídeos diversos, alguns nem sequer produzidos – ou produzidos a ponto de otimizar a imagem de quem é só leitor de orelha de livro e a timeline que já era poluída agora também é confusa, terra de muita gente que diz que sabe tudo.

Só eu estou farta da prostituição dos tutoriais e infoprodutos, de maneira geral? Quantos vídeos, posts, só você viu hoje que trazia algo como os 10 segredos para isso, as 08 formas de atingir x resultado? E quantos dos que você segue, que tratam, em linhas gerais, de gestão de negócios, planejamento estratégico, startups, inovação e similares, têm, de fato, um negócio sustentável, um case? Desculpem, mas resultado e sucesso pessoal e profissional não são contabilizados – ou, pelo menos, não deveriam – em views.

Essa proliferação de consultores sem prática, vivência, experiência e transpiração, tem me feito lembrar de um ditado que aparecia nas agendas e diários do ensino médio, quando trocávamos pensamentos e reflexões: Aquele que não sabe e pensa que sabe, é tolo. Evite-o; Aquele que sabe e não sabe o que sabe, está adormecido. Desperte-o; Aquele que sabe e não admite o que sabe, é humilde. Guie-o e; Aquele que sabe e sabe o que sabe, é sábio. Siga-o.

Acho que andamos “seguindo” as pessoas erradas. Em tempo de tantos métodos e fórmulas que prometem resultados jamais dimensionados, estamos precisando alterar a reação. Antes de seguir, que tal pesquisar a trajetória daquele que você está pensando em até investir financeiramente para “degustar” o menu de possibilidades? Antes de curtir, que tal contestar – ou simplesmente questionar? De alguma experiência, afinal, tem de vir uma dita regra infalível para o sucesso.

Eu não quero generalizar. Só quero sugerir que não invista sem referências. Os infoprodutos são ótimas alternativas. Teoricamente, provêm informações para educar, resolver um problema ou facilitar, de alguma forma, a sua vida com relação a algum assunto.

Eu não sou a primeira e nem serei a última a dizer que a tecnologia nos propiciou mais essa oportunidade e que o mercado digital tem disponibilizado esse espaço. Eu só acredito que como audiência e mentorados, precisamos exigir que esse espaço seja para quem tem – verdadeiramente – conteúdo para compartilhar com outras pessoas.

O ponto é simples – conteúdo credível. O conteúdo ainda é a chave. E as Instituições de Ensino onde entram nisso? Protagonistas na transformação digital, eu diria. A forma como nós criamos conteúdo tem que mudar. Não é de agora que sentimos que em um mundo ultra conectado, ignorar os dados que temos a nossa disposição e a jornada do usuário é uma grande falácia. Façamos o dever de casa. Entendamos nosso aluno como principal usuário e façamos, para ele, o melhor conteúdo. Conteúdo sem propósito é propaganda. Conteúdo de verdade tem que entregar algo missão. Pra mim, só pode ser a de Educar Sempre, a despeito qualquer mediação.





Notícia publicada pela ABMES, no dia 24 de outubro de 2019, no endereço eletrônico https://blog.abmes.org.br/empreendedorismo-de-palco-e-de-rede-social-nem-tudo-que-reluz-e-ouro/


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