A necessidade de valorizar o professor

Valor Econômico • 04 de setembro de 2019

Por Tiago Cavalcanti

Um dos pesquisadores que mais me impressionou recentemente em economia foi o Raj Chetty, jovem professor da universidade de Harvard, que tem pesquisa fascinante sobre educação, mobilidade social e desigualdade. Raj Chetty usa "big data" para entender como crianças vulneráveis podem ter melhores perspectivas na vida adulta.
Em trabalho com dois outros pesquisadores, John Friedman e Jonah Rockoff, Raj Chetty cruzou dados do Valor Adicionado (VA) dos professores da rede pública no desempenho escolar de mais de um milhão de crianças nos Estados Unidos com informações da declaração do imposto de renda dessas mesmas crianças quando adultas e aos 28 anos de idade. As conclusões desse estudo impressionam. Os autores mostram que alunos expostos a bons professores na infância e adolescência não só aumentam as chances de frequentarem universidades no futuro, e com isso terem salários mais elevados quando adultos, mas também diminuem as chances de uma gravidez indesejada na adolescência e a probabilidade de viverem em locais violentos.
Ou seja, o efeito de bons professores na escola vai além de elevar as notas e o desempenho escolar dos seus alunos. Bons professores têm impacto significativo sobre o capital humano na vida adulta e no bem-estar social. Quantitativamente os autores calculam que a substituição de um professor de baixa qualidade (entre os 5% piores em termos de VA) por um professor mediano tende a elevar em US$ 250 mil o valor presente da renda dos alunos de uma sala de aula típica nos Estados Unidos. Seria ótimo replicarmos tal pesquisa para o Brasil, porém infelizmente não temos acesso aos mesmos dados dos pesquisadores americanos. Minha conjectura, contudo, é que os efeitos seriam ao menos qualitativamente similares no Brasil.
Faz um bom tempo que a pesquisa econômica vem mostrando o papel fundamental do capital humano no desenvolvimento. Não foi sempre assim. Até a década de 80, alguns economistas enfatizavam principalmente o papel da estrutura produtiva (indústria) para o desenvolvimento. O capital humano tinha papel secundário no progresso econômico e social para esses economistas. No entanto, a estrutura produtiva e o uso eficiente dos fatores produtivos dependem também da qualidade da mão de obra, que por sua vez é função das políticas educacionais. Não que uma sociedade não necessite de indústrias, mas o foco do desenvolvimento deve também ser os indivíduos. Esse tipo de pensamento com foco na industrialização influenciou nossa política econômica durante décadas. Só a partir dos anos 90 o Brasil começou a priorizar lentamente a educação pública. Mas ainda continuamos bastante atrasados.
A pesquisa dos autores americanos mostra que dentro desta política educacional está o papel de abonar bons professores e atrair pessoas talentosas a esta profissão. Isso requer uma valorização da carreira como um todo: desde condições de trabalho adequadas até, claro, salários competitivos e premiações financeiras.
É importante salientar, dentro de um período de crise fiscal, que não necessariamente devemos gastar mais com educação. Segundo dados da OCDE (Education at a Glance, de 2017 e 2018), o Brasil gasta mais com educação pública como proporção do orçamento público e como proporção da renda do que a Coreia do Sul e outros países da OCDE. Enquanto a Coreia do Sul está no topo no ranking internacional de desempenho de seus alunos em matemática e compreensão de texto, o Brasil está entre os últimos.
A evidência sugere que existe também um problema sério de alocação de recursos e de gestão. De acordo os dados da OCDE, o Brasil gasta muito mais do que a Coreia do Sul em ensino universitário como proporção dos gastos totais em educação e, no entanto, a proporção de jovens brasileiros matriculados na universidade é de cerca de 20% e na Coreia do Sul é de 80%. Sem falar que o custo de um aluno universitário é menor na Coreia do Sul do que no Brasil.
A Coreia do Sul tem três universidade entre as 100 melhores do mundo pelo The Times Higher Education World University Rankings de 2019. O Brasil não tem nenhuma universidade entre as 100 melhores neste ranking, que é o principal de comparação entre universidades. Ou seja, não gastamos pouco com educação, mas somos ineficientes no uso de nossos recursos, além de alocá-los de forma equivocada.
Tenho visão crítica em relação ao nosso sistema público de universidades, que foi expandido de forma pouco criteriosa durante o governo do PT. Nas universidades públicas a forma de contratação é baseada em concursos públicos arcaicos, não se pode pagar professores de forma diferente, as promoções dependem do tempo de serviço e não há autonomia na gestão dos recursos. Há rigidez para gerir os recursos e pouca autonomia nas decisões.
É um sistema, contudo, que ao invés de ser sucateado, necessita ser reformado, tendo como base as melhores práticas internacionais. Sem autoritarismo ou revanchismo. A universidade pública em geral tem pesquisadores excelentes em diversas áreas e ainda é o principal local de produção científica em várias disciplinas. A crítica é para melhorar o sistema atual. Foi através da ciência que tivemos os nossos principais avanços na medicina, genética, engenharia e outras áreas com implicações diversas sobre nosso bem-estar.
As reformas da previdência, tributária e do nosso ambiente de negócios são necessárias para o nosso progresso econômico, mas sem uma melhoria substancial na educação será difícil o Brasil progredir nos seus principais indicadores sociais, econômicos e competir em um mundo global onde o conhecimento é um dos principais insumos.
A melhora na educação passa por um plano ambicioso de intervenções na primeira idade, implementação nacional de escolas em regime integral e uma política forte para atrair e reter talentos em nosso sistema público de educação básica. Por exemplo, um programa bem remunerado com perdão de débitos de crédito educacional para os melhores universitários lecionarem no nosso ensino básico por alguns anos após a graduação. Todos nós sabemos que bons professores são fundamentais para nossa formação, o que a pesquisa do Raj Chetty mostrou é que professores medíocres tem efeitos de longo prazo na vida adulta de crianças e assim no nosso futuro
Tiago Cavalcanti é professor de economia da Universidade de Cambridge e FGV-SP:




Notícia publicada pelo Valor Econômico às 05h00, no dia 4 de setembro de 2019, no endereço eletrônico https://www.valor.com.br/opiniao/6420329/necessidade-de-valorizar-o-professor


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