Os jovens e a ciência no Brasil

O Globo • 24 de junho de 2019

POR ANTÔNIO GOIS

A maioria dos jovens brasileiros diz demonstrar interesse por temas científicos e valorizar o trabalho dos cientistas. Sete em cada dez afirmam que a atividade traz para a humanidade muitos benefícios e 60%, mesmo sabendo que os recursos públicos são limitados e que gastar mais com uma área pode significa aplicar menos em outra, defendem ampliar investimentos no setor. Apesar dessa boa imagem, poucos, mesmo entre aqueles que frequentam o ensino superior, são capazes de citar o nome de um cientista ou de uma instituição de pesquisa. E mais da metade deles deu respostas erradas à maioria de perguntas básicas de conhecimento científico.

Esses são dados de uma pesquisa que o INCT-CPCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia) divulga hoje na Fiocruz. Ela foi feita entre os meses de março e abril deste ano com uma amostra de dois mil brasileiros representativa da população de 15 a 24 anos. O levantamento envolveu também uma etapa qualitativa, em que pesquisadores conversaram com mais profundidade com grupos de jovens a respeito dos resultados da pesquisa nacional, e sobre como identificam notícias falsas sobre temas científicos.

Entre os resultados mais preocupantes da pesquisa está o fato de 54% concordarem que os cientistas possam estar exagerando sobre efeitos das mudanças climáticas e 40% dizerem não concordar com a afirmação de que os seres humanos evoluíram ao longo do tempo e descendem de outros animais. Há ainda 25% que concordam com a afirmação de que vacinar crianças pode ser perigoso.

Na avaliação de Luísa Massarani, coordenadora da pesquisa, mesmo sendo preocupante constatar que um quarto dos jovens vê perigo em vacinas, é importante destacar que 75% se mostram conscientes dos benefícios dessa política, um sinal positivo de que o movimento antivacina está longe de ser majoritário entre os jovens. Ela também pondera que o fato de 54% afirmarem que possa haver exagero na comunicação sobre os efeitos do aquecimento global não significa que sejam todos negacionistas climáticos, já que a pergunta fala de uma possibilidade. Ainda assim, é um dado que sinaliza a importância de melhorar as estratégias de comunicação da comunidade científica sobre esse e outros temas.

Na pesquisa qualitativa, jovens comentaram que, em vez de buscarem ativamente informações sobre ciência e tecnologia, o mais comum é que eles “tropecem” nessas informações, o que reforça a necessidade de ter estratégias mais ativas de levar informação qualificada a esse público. Essa é uma tarefa ainda mais relevante considerando que 69% dos entrevistados disseram ser difícil ou muito difícil saber se uma notícia em ciência e tecnologia é falsa ou verdadeira. Um dado interessante, destacado pelo pesquisador Yurij Castelfranchi, é que entre jovens que relataram terem nos últimos 12 meses visitado museus, bibliotecas, parques ambientais ou participado de eventos científicos, o percentual dos que relatam dificuldade em identificar notícias falsas cai para 44%.

Há muitos outros dados da pesquisa que merecem ser aprofundados, para aproveitar melhor o interesse declarado dos jovens em ciência e com o objetivo de capacitá-los para tomar melhores decisões sobre sua vida e sobre o planeta, sempre baseadas nas melhores evidências científicas.






Notícia publicada pelo O Globo, às 04h30, no dia 24 de junho de 2019, no endereço eletrônico https://blogs.oglobo.globo.com/antonio-gois/post/os-jovens-e-ciencia-no-brasil.html


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