Empreendedoras brasileiras ganham bolsas para mestrado

Estadão • 05 de junho de 2019

Por: Andrea Tissenbaum

Propósitos sociais bem definidos e sensibilidade ao entorno, estas são algumas características das bolsistas que vão estudar na University of Southern California.

Desde 2017, a Fundação Lemann, em parceria com a University of Southern California – USC, concede bolsas para o mestrado em Empreendedorismo Social (Master of Social Entrepreneurship – MSSE) dessa prestigiada instituição de ensino. O objetivo é beneficiar alunos brasileiros que possam criar iniciativas de empreendedorismo e impacto social no Brasil. Afinal, os complexos problemas do mundo de hoje exigem lideranças capazes de gerar mudanças sustentáveis.

Em junho de 2018, duas profissionais “do bem” ganharam bolsas para o programa da USC. No final deste ano, ambas retornam para o Brasil. Nas próximas semanas, outras duas brasileiras com histórias para lá de interessantes, embarcam para Los Angeles, onde vão participar do MSSE. Firmes propósitos de vida e uma sensibilidade particular a questões sociais, são dois dos vários denominadores comuns que elas apresentam.


Luciana Paulino| Foto: Fernanda Frazão

Luciana Paulino é formada em Relações Públicas pela UNESP de Bauru, São Paulo. Há muitos anos trabalha com turismo, e já foi relações publicas para diversas empresas e grupos hoteleiros. “Viajava bastante e não via turistas que se parecessem comigo”, ela conta. Assim, a partir de suas experiências, decidiu empreender e em 2018 lançou uma plataforma de turismo e afro-representatividade chamada Blackbird.

“No turismo, em todas as partes, há uma marcação muito forte do negro. Aqui no Brasil, poucas pessoas falam sobre ser um corpo negro pelo mundo. Na Blackbird, temos como proposta promover dicas e roteiros especiais de turismo afro-referenciado. Também compartilhamos relatos de viajantes negros, histórias de lugares e cultura negra e inspiramos novas narrativas. Nosso trabalho, além de fomentar um turismo de pertencimento, mostra a importância de estarmos abertos para o mundo e de recebermos sua diversidade. Viajar deve ser uma experiência inclusiva para todos”, ela reforça.


Luciana Paulino em viagem a Palmares | Foto: Luciana Paulino

Luciana conta que nunca foi uma aluna excepcional. “Minha graduação foi um processo difícil. A realidade é que ser negro no Brasil não é nada fácil. Talvez por isso eu sempre tenha empreendido com propósito e usado minha voz para contar histórias e mobilizar pessoas. Quando comecei a trabalhar com turismo, rodei bastante e inúmeras vezes eu era a única negra no avião. Muitas pessoas se emocionaram quando souberam que recebi a bolsa para o mestrado na USC. Espero que minha conquista inspire outras meninas e mulheres negras a batalhar pelo que acreditam.

Este mestrado vai me permitir mergulhar no turismo afro-referenciado, já bem difundido nos Estados Unidos. Quero trazer novas ferramentas para o Brasil, para poder capacitar outros empreendedores negros que já tem um produto turístico, mas que ainda não tem esse olhar”.

A relação da carioca Eizen Monteiro Wanderley com o empreendedorismo social aconteceu de uma “maneira inesperada”, como ela explica. Formada em Relações Internacionais pela PUC – RJ com mestrado em Política Internacional pela Universidade de Brasília – UNB, Eizen também se formou em Direito pela Federal Fluminense – UFF.

“Fiz o mestrado em Brasília, na sequência da graduação em Relações Internacionais. Trabalhei na ONU e em diversos outros projetos. Alguns anos depois, voltei a estudar Direito, fiz concurso e hoje trabalho no BNDES. Planejava abrir um escritório de direito imobiliário com meu pai, mas ele faleceu, de repente. Perdê-lo me impactou profundamente, mas a vida abriu novos caminhos que me ajudaram a recuperar o fôlego.


Eizen Wanderley em entrevista sobre a praça | Foto: Eizen Wanderley

Sempre frequentei muito as feiras públicas. Na verdade, sempre entendi a feira como um lugar de oportunidades, que fortalece o consumo local. É um espaço aberto, público, que permite conversas e trocas entre as pessoas. Então, criei o das Feiras no Instagram, para divulgar pequenos produtores e eventos de consumo local que eu frequentava no Rio de Janeiro. Para dar lógica às publicações, fundamentei os conteúdos no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8 da ONU, de consumo e produção consciente. O das Feiras cresceu espontaneamente e se tornou uma paixão. Era uma atividade voluntária que eu tinha depois do expediente de trabalho ou nos finais de semana e feriados. Sem dúvida, trouxe muitos empreendedores bacanas para perto, alguns se tornaram meus amigos. O das Feiras transformou uma advogada em uma empreendedora social que é impactada pelo que está a sua volta e quer potencializar oportunidades para as pessoas”, ela explica.

“Eu faço muitas perguntas, entendo que perguntar movimenta a gente, muda as nossas vidas”. E foi assim que um dia, ao ver uma praça abandonada no bairro de Botafogo, Eizen se perguntou se aquele espaço público podia ser diferente. “A partir daí minha vida virou de cabeça pra baixo. Me envolvi, envolvi a comunidade, fui conversar com o poder público. Na verdade, fiz um “auê”. Queria transformar aquela praça, que era um lugar abandonado com enorme potencial econômico e cultural, em um espaço público interessante. A rua não é lugar para crianças morarem, muito menos quando é ponto de tráfico e uso de drogas. Aquela praça precisava ser humanizada, voltar a ser usada por todos os cidadãos.

Na época tudo isso era só um projeto, um sonho no papel e eu queria validar a minha ideia. Soube da oportunidade do mestrado na USC pelo Blog da Tissen, fiquei muito impactada com as histórias das outras mulheres que ganharam a bolsa. Então, quando fiz a entrevista, encontrei a resposta que estava procurando: “Eu não sei se você vai conseguir a bolsa, mas o seu projeto é incrível – disse o professor. Você sabe o que está fazendo, sabe com quem tem que falar, vá em frente”. E eu fui, tocar o projeto da pracinha. Fiquei tão envolvida que ele aconteceu”.

Eizen diz que agora, com a oportunidade do mestrado, tem o desafio de repensar sua carreira. “Pedi uma licença de dois anos para fazer isso. Se eu for com a certeza de que vou voltar para o meu emprego, não fiz a pergunta certa e perguntas, como já falei, movimentam. O plano é não ter plano. Mas tenho grandes expectativas. Quero aprender e conversar com pessoas com valores próximos dos meus, que reflitam sobre as comunidades e sobre o que é impacto social. Também quero me expor a novas ideias. Vou estudar muito, me abrir à novas formas de ver o mundo e a outros negócios sociais. Eu nunca pensei em ter a minha empresa, nunca me vi empreendedora, no entanto, empreendi um monte. Isso não foi pensado, não foi planejado nem intencional. Eu não acreditei quando ganhei a bolsa. A gente acha que é algo muito extraordinário, mas não é. Pessoas comuns como eu são capazes de conquistar esse novo lugar”, ela reforça.

Estudantes participantes do MSSE desenvolvem um mindset global e empreendedor, aprendem a liderar com integridade, propósito e ética, e a maximizar a importância da diversidade e da inclusão. Também adquirem uma compreensão profunda das principais funções das empresas e são capazes de identificar e aproveitar oportunidades em ambientes de negócios complexos e dinâmicos. Bolsistas do MSSE alcançam resultados promovendo a colaboração, a comunicação e a adaptabilidade nos âmbitos individual, de equipe e da organização.

Interessados devem enviar um e-mail para socialentrepreneur@marshall.usc.edu, expressando sua vontade de participar. Também devem fazer sua inscrição pelo processo seletivo da USC, a partir de 31 de agosto, apresentando os seguintes documentos:

– Diploma de graduação. Estudantes no processo de conclusão da graduação podem se inscrever, com aceitação dependente no término do curso.
Inscrição online
– Carta de motivação / Essay
– Uma carta de recomendação
– Currículo profissional
– Proficiência em inglês comprovada pelos exames TOEFL ou IELTS

Aproveite esta oportunidade para se juntar ao grupo de empreendedores que vai transformar o Brasil. Boa sorte!

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais.
Entre em contato: tissen@uol.com.br

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Notícia publicada pelo Estadão, às 07h58, no dia 5 de junho de 2019, no endereço eletrônico https://educacao.estadao.com.br/blogs/blog-da-tissen/empreendedoras-brasileiras-ganham-bolsas-para-mestrado/


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