Digitalização & Humanidade: O futuro da educação e do trabalho

ABMES • 23 de maio de 2019

Por: Emanuel Santana

Como olhar para o futuro e ver um mundo que ainda não existe?

Não há tecnologia ou bola de cristal que possa fazer esse trabalho. Em novembro de 2017 a revista científica Nature publicou uma pesquisa revelando que o cérebro humano é capaz de olhar o futuro de fato. Obviamente, é bem mais fácil olhar segundos à sua frente no tempo do que décadas como fez Isaac Asimov. Entender o que está acontecendo, antecipar o futuro através da imaginação e, o principal, ser capaz de estabelecer a conexão correta com esse futuro.

​A clareza com a qual se enxergará o futuro dependerá da liberdade concedida aos sentidos, percepção e imaginação. O ponto de partida também irá influenciar aonde se poderá chegar, bem como a aceitação de que será uma viagem sem volta. No contexto da revolução tecnológica digital é preciso ter em mente dois princípios:

  1. O digital não é fruto do humano e sim a sua essência. Entender o digital como a semente da vida, considerar que o DNA é essencialmente um código de informações que programam e coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos.

  2. .A conexão entre homem, tecnologia e natureza. Nessa nova trindade, a tecnologia é o meio pelo qual os homens dominam a natureza da qual também fazem parte.

Heróis e vilões: Homens e máquinas

Há dez anos homens e máquinas salvaram a vida do meu filho do meio, Tiago, e continuam salvando todos os dias, desde que ele nasceu. Tiago tem uma síndrome rara, Síndrome de Ondine, que faz com que ele não sinta falta de ar, nem tenha o controle autonômico da respiração. Todas as noites ele precisa de uma máquina para respirar e de um humano para velar seu sono. Minha experiência nesta última década evidencia que a discussão central do futuro não é homem versus máquina, mas sim homem mais máquina e homem versus homem.

A singularidade tecnológica, homem mais máquina, seria um processo em curso iniciado há cerca de 3 milhões de anos. Bem anterior às transformações digitais da tecnologia, o osso, o fogo, as ferramentas de pedra, a agricultura, a roda e tantas outras ferramentas, modificaram a maneira como o homem se relacionava com a natureza e ao mesmo tempo, modificaram o próprio ser humano profundamente. Poder consumir mais proteínas foi fundamental para o desenvolvimento do seu cérebro e, por consequência, para o desenvolvimento da escrita, registrando e amplificando o pensamento para além do encéfalo.

Do registro à produção, distribuição e consumo em escala global, o livro, com o tipo móvel de Gutenberg, possibilitou escalar a educação para o mundo, modelando as pessoas para o emprego na Revolução Industrial. Quando as palavras já não eram suficientes, foi preciso escrever com a luz, fotografar, dominar o som e imagem para compartilhar a vida em um mundo digital onde o ser humano começa a se reinventar.

O futuro entre desejos e medos

Se na lei de Moore, a capacidade de processamento dos computadores dobrava a cada 18 meses com os mesmos custos, muito mais veloz é a multiplicação do desejo humano, a despeito de seus custos. Agora que já se decifrou o código da vida, o homem quer reescrevê-lo à sua vontade, retardar o envelhecimento com a nanotecnologia molecular e engenharia genética, substituir continuamente componentes defeituosos do corpo para uma possibilidade de vida ilimitada ou mesmo carregar a consciência pós-morte em uma supermáquina. Em oposição à perspectiva da abundância está o temor do homem de que a criação de uma superinteligência artificial, com níveis superiores a toda inteligência humana, possa substituí-lo ou até mesmo eliminá-lo.

Provavelmente, nenhuma das duas previsões acontecerá de fato. Quem tiver sorte experimentará um futuro resultante das forças desses opostos e terá que reaprender constantemente em um mundo que desafiará cada vez mais a inteligência humana e colocará em xeque suas crenças com muito mais frequência. Relembrando, este processo começou há pelo menos 3 milhões de anos e é, obviamente, irreversível. A novidade é que o mundo está no limiar de uma nova revolução, já experimentando mudanças radicais no modo de vida que irão se aprofundar ainda mais.

Como se preparar para um mundo onde bilhões de humanos serão excluídos do mercado de trabalho pela revolução tecnológica digital?

Paradoxalmente, enquanto na Revolução Industrial a escola foi imbuída de modelar o homem para o emprego, contemporaneamente ela terá de assumir a missão de prepará-lo para o desemprego. Isso pode parecer fácil e até engraçado, mas considerando dogmas como “o trabalho dignifica o homem” as dificuldades para levar a cabo essa mudança de paradigma são colossais, tanto do ponto de vista psicológico quanto social, econômico e político.

Para novos problemas não existe uma solução pronta. É cômodo termos uma receita, uma fórmula ou uma lista de requisitos do que devemos seguir para solucionar os diversos problemas do trabalho humano. Uma sigla ou uma repetição de letras iniciais que nos guiam e nos tranquilizam, mostrando-nos um mapa seguro que até parece uma poção mágica: 5W2H, os 4 ou os 8 Ps do Marketing, os 4 Cs da Educação para o século XXI ou os 6 Ds das tecnologias exponenciais (Digitalização, Decepção, Disrupção, Desmonetização, Desmaterialização, Democratização).

Mas afinal, quantos Hs serão necessários para guiar a transformação humana? Seremos submetidos aos 6 Ds da tecnologia e desmaterializados em um universo virtual? Ninguém tem hoje essa resposta. Vivemos em um limbo de incertezas. O velho mundo está desmoronando, o novo mundo ainda está em processo de nascimento. Enquanto esse misterioso mundo novo não nasce completamente, as contrações e incertezas são enormes e as crises são múltiplas. Somente os que compreenderem esse limiar e possuírem as condições materiais e psicológicas necessárias poderão estabelecer as conexões corretas com o futuro. Serão os parteiros de uma nova era e irão inspirar tudo que está por vir.

O confronto é inevitável, precisamos nos reinventar. Essa é a maior e mais importante de todas as inovações. Aprender, desaprender e reaprender. Ninguém tem experiência ou está altamente qualificado para fazer algo que não existia. A melhor forma de se preparar para o futuro é se capacitar para aprender rápido e constantemente. As soluções dos problemas que já foram resolvidos são apenas uma pequena parte do processo de aprendizagem.

A questão principal é que a humanidade terá que se reinventar do ponto de vista da engenharia social, como um organismo vivo, visto que não poderia sobreviver como humanidade, tendo sacrificado fisicamente a existência de bilhões. Por isso, é urgente iniciar a construção de um sistema de proteção para os seres humanos, que sem um emprego ou trabalho, se tornarão totalmente dispensáveis e perderão a ligação com o próprio futuro. Estes terão que ser conciliados com os humanos que serão extremamente qualificados e necessários, garantindo a sobrevivência, estabilidade social e principalmente, sentidos relevantes para a vida dos humanos.

Quantas horas serão necessárias?

A humanidade precisará de todas elas, mais do que uma rede de computadores, será necessária uma rede de Inteligência Humana para criar este sistema de proteção da humanidade. A educação tem aqui sua grande oportunidade para assumir a liderança dessa transformação e ocupar uma posição chave nesse processo. É preciso mudar agora o currículo escolar. O desenvolvimento de competências deverá ser ubíquo e vitalício, centrado na tutoria da aprendizagem, desaprendizagem e reaprendizagem.

Essa nova concepção exigirá a compreensão e ampliação do horizonte dos limites do gênero humano, desenvolvimento das habilidades de adaptação a mudanças rápidas. O foco dos estudos irá voltar-se para as capacidades humanas mais difíceis de serem copiadas pelas máquinas, tais como colaboração, criatividade, julgamento, empatia, resiliência, persistência e fortalecimento dos laços afetivos, ao invés de habilidades tecnológicas, rotineiras e previsíveis que rapidamente já estão sendo superadas pelas máquinas.

A nova escola não será apenas o ponto de partida para o mundo do trabalho, mas será parte integrante da vida profissional de todos que terão um emprego e também para os que não terão. Ela será o destino que atribuirá um sentido para a jornada humana. O que agora parece uma ameaça, pode se tornar um meio de alcançar a plenitude de uma vida com propósito ideal, como a dedicação a melhor formação dos filhos, estudos e compreensão da existência. Afinal, não foi para proporcionar tempo para o que verdadeiramente é relevante que as máquinas foram inventadas?

Em qualquer um dos cenários será necessária uma profunda adaptação ao funcionamento desta nova realidade de transformações complexas da vida. Será exigido um grande empenho para concentrar a energia no que realmente importa: cuidar da saúde física, mental e espiritual; o foco no desenvolvimento das coisas que fazem humanos serem humanos, valores que nenhuma tecnologia pode alcançar. E, sobretudo, nunca perder a fé em si e na vida, porque ela sempre será maravilhosa, apesar de tudo e de todos.

A Tecnologia é apenas uma ferramenta, quem faz a escolha é o Homem, e o Universo não tem limites, a não ser os que os próprios humanos estabelecem.



Notícia publicada pelo blog da ABMES, no dia 23 de maio de 2019, no endereço eletrônico https://blog.abmes.org.br/?p=15397


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