Livro aborda os conflitos dos alunos que estão prestes a ingressar no ensino superior

Revista Ensino Superior • 16 de maio de 2019

Lúcia Teixeira, autora do recém-lançado Caminho para ver estrelas, propõe uma reflexão sobre a transição para a vida adulta e os desafios que ela apresenta aos jovens

É em um mundo em que, de repente, a criatividade e os desejos dos jovens desaparecem que se passa o livro Caminho para ver estrelas (Cortez e Unisanta, 136 págs.), de Lúcia Teixeira. Os protagonistas, Lucas e Ana, estão na faixa dos 17 anos, terminando o ensino médio e vivenciando a escolha – repleta de anseios – do curso superior.

É uma fase de transição importante na vida dos jovens, e que a autora conhece muito bem. Mestre e doutora em Psicologia da Educação, Teixeira atua como professora, escritora e psicóloga, além de ser presidente da Unisanta (Universidade Santa Cecília), localizada em Santos (SP), e vice-presidente do Semesp, entidade que representa as mantenedoras de instituições de ensino superior.

Na obra, a professora busca inspirar o leitor, principalmente os jovens, a enfrentar frustrações e a lutar pelos seus sonhos. Em entrevista à Ensino Superior, Teixeira fala sobre a dificuldade de o jovem finalizar a educação básica e ainda aborda como a equipe docente pode prevenir quadros de depressão e até casos mais graves, como o suicídio.

Ana, uma das personagens centrais, passa por diversos dilemas, como é possível notar nesse trecho: “estava me sentindo tão inútil naquele dia especialmente. Um ser humano insignificante, em dúvida sobre o que vim fazer no mundo. Faria alguma diferença se eu deixasse de existir? Para quem, além de algumas pessoas de minha família?”.

Confira a entrevista:

Os personagens principais são jovens prestes a terminar o ensino médio e que precisam tomar algumas decisões que impactarão suas vidas e a de todos. A senhora quis colocar em discussão esse momento de transição para a fase adulta, quando se iniciam novos ciclos e novos desafios?

Ana [personagem negra e com depressão], prestes a completar 18 anos, está terminando o ensino médio, mas não consegue arrumar um emprego em um mercado de trabalho com baixas ofertas para essa faixa de idade, mas que, ao mesmo tempo, exige cada vez mais qualificação tecnológica. No Brasil, hoje, de cada quatro alunos do ensino fundamental, apenas dois continuam no ensino médio e, destes, somente um avança no ensino superior. Atualmente, somente 18,1% dos jovens de 18 a 24 anos estão em universidades e faculdades. A meta do Plano Nacional de Educação [PNE] é chegar a 33% em 2024. A grande quantidade de jovens não termina o ensino médio e não chega ao ensino superior. O país sofre com essa ausência de políticas públicas. Quando não conseguem estudar nem arrumar emprego para ajudar na sobrevivência da família, podem aparecer sentimentos de desesperança e de inutilidade, desencadeadores de quadros depressivos. Esses mesmos sentimentos parecem se agravar na geração de jovens desalentados (os que desistiram de procurar emprego, saindo assim das estatísticas de desemprego). Ficam sem propósitos claros, nem trabalham nem estudam, os chamados “nem-nem”, 23% da população brasileira de jovens, ou seja, dois em cada dez.

O ponto chave da narrativa é que, de repente, as pessoas não acreditam mais em si mesmas e não sabem mais enfrentar frustrações. Qual mensagem a senhora quer passar para o leitor?

Os personagens cumprem uma série de desafios, em viagens no espaço-tempo para o passado e o futuro, nas quais precisam superar o individualismo e usar a imaginação e a criatividade, para achar o antídoto. É uma forma de mostrar que há limites e tempo para tudo. Quero convidar cada um a sair de si para enxergar o outro, refletir sobre seu papel, sua responsabilidade, iluminar a escuridão e construir caminhos para ver estrelas: questionar a realidade, vencer a apatia e a desolação espiritual da vida moderna e dominar também quatro cavaleiros bastante conhecidos, que ainda têm muitos seguidores extremistas e diferentes codinomes: Guerra, Morte, Fome e Peste. Para tal, é preciso desenvolver a consciência planetária e superar as intolerâncias.

Infelizmente, o suicídio está crescendo entre os jovens. A senhora defende a adoção de alguma medida, pelas escolas e instituições de ensino superior, para evitar essa fatalidade?

É preciso conversar sobre o tema com especialistas, realizar rodas de conversa e orientar professores e funcionários para, ao identificar sinais de alerta, encaminhar os jovens para o setor de apoio psicopedagógico. Também é importante envolver a família e reforçar para o aluno que buscar ajuda é um sinal de força, e não de fraqueza. Não se deve tentar atribuir culpas. O fundamental é não ignorar os sinais e se mostrar disponível a ajudar. Engajar estudantes em projetos relevantes em arte, solidariedade, cultura e esporte, para que eles se sintam úteis, importantes e possam descobrir talentos que nem pensavam possuir. A escola e a universidade não podem assumir o papel de clínica psiquiátrica, mas podem sim ser parte de uma extensa rede de proteção aos jovens, que precisa envolver a família, o sistema público de saúde, a sociedade e muita informação e prevenção. Precisamos mostrar que há razões para viver. Construir esses caminhos para ver estrelas. Sem esperar o paraíso na Terra, usar lucidez e coragem para melhorar o mundo, todos juntos.


Lúcia Teixeira é presidente da Unisanta e vice-presidente do Semesp






Notícia publicada pela Revista Ensino Superior, no dia 13 de maio de 2019, no endereço eletrônico https://revistaensinosuperior.com.br/alunos-ensino-superior/


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