Por que as metodologias ativas podem ser uma importante ferramenta de mudança educacional?

ABMES • 02 de maio de 2019

Por: Gustavo Hoffmann

O dia 28 de abril é considerado o Dia Internacional da Educação. É importante comemorarmos esta data, mas não podemos deixar de ter um olhar crítico sobre o tema, aproveitando a ocasião para promover uma reflexão sobre o passado e o futuro da educação. Sem dúvida, tivemos importantes avanços tecnológicos e metodológicos nas últimas décadas, mas nosso modelo educacional tradicional está falido. E ele ainda predomina, tanto na educação básica quanto no ensino superior.

Hoje, nós trabalhamos com um modelo predominantemente Just in Case. Ou seja, tratamos o processo de aprendizagem como se fosse um sistema de gestão de estoques em que quanto mais, melhor. Depositamos nos alunos uma alta carga horária de conteúdos para que os utilizem se um dia precisarem. O problema é que, quando precisarem aplicá-los, é muito provável que nem se lembrem mais dos conceitos básicos e, se lembrarem, é muito provável que estejam obsoletos. Parece fazer muito mais sentido o modelo Just in Time. Nele, menos é mais. O conteúdo não é estocado, mas sim oferecido ao aluno sob demanda, exatamente quando será utilizado. Neste caso, o conteúdo se torna uma ferramenta para ser aplicada na solução de um problema. Estudos mostram que depois de um semestre nossos alunos não se lembram nem de 20% do conteúdo exposto pelo professor em sala de aula. Então, por que ainda somos tão fascinados em cobrir todo o conteúdo de determinadas disciplinas no modelo tradicional, sabendo que boa parte deste conteúdo nunca será utilizado pelos alunos e, se utilizado, estará ultrapassado ou terá que ser revisto? Não há carga horária que seja suficiente neste modelo altamente ineficiente.

No modelo de ensino tradicional, onde o professor faz o papel de sábio no palco e os alunos são agentes passivos do processo, um mesmo ritmo é imposto para todos, desrespeitando as individualidades inerentes ao processo de aprendizagem. Já é comprovado que cada aluno possui um ritmo individual de aprendizagem. Por exemplo, um aluno pode ter muita dificuldade em língua portuguesa e facilidade em matemática e seu colega pode ter muita dificuldade em matemática e facilidade em língua portuguesa, mas ambos têm plenas condições de atingir o nível máximo de complexidade desses dois conteúdos. Entretanto, um deles precisará de mais tempo para aprender língua portuguesa e seu colega mais tempo para aprender matemática.

Nosso modelo educacional presencial fixa o tempo que cada aluno tem para aprender e flexibiliza a aprendizagem. Isso é visto em todas as IES do Brasil, em todos os cursos. Os cursos são divididos em semestres, que são divididos em disciplinas, cada uma com uma determinada carga horária. Se uma disciplina possui 80 horas, o aluno terá 80 horas-aula para aprender seu conteúdo. Alguns aprenderão quase tudo, alguns quase nada, a maioria fica próxima à média, mas quem obtém um desempenho superior a 60%, na maioria dos casos, é aprovado. Isso significa que um aluno que deixou de aprender 40% do que está previsto em um conteúdo programático é aprovado. O tempo para a aprendizagem é extremamente rígido, mas o tanto que cada aluno aprende é muito flexível. A lógica está invertida! Deveríamos garantir a aprendizagem e flexibilizar o tempo que o aluno leva para atingi-la, já que tem um ritmo único. Em outras palavras, estamos ensinando de uma forma que os alunos não aprendem, deixando importantes lacunas no processo. Acabam aprendendo algo, dada a enorme carga horária à qual são submetidos nas suas graduações, mas, definitivamente, o modelo presencial tradicional não é o mais eficiente quando se trata de aprendizagem.

A proposta das metodologias ativas, que quebram este modelo tradicional, conteudista, predominantemente expositivo e instrucional, é que o próprio aluno seja responsável pela busca e construção do conhecimento, através de atividades que partam de situações problema, onde o conteúdo é apenas uma das ferramentas que serão utilizadas como parte da solução. Em outras palavras, as metodologias ativas são um excelente recurso para converter o ultrapassado modelo Just in Case em um exitoso modelo Just in Time.

Já temos tecnologia e conteúdo digital de qualidade para que o professor não seja a única fonte de informações e a sala de aula não tenha um papel exclusivamente instrucional. Já temos, sobretudo, metodologias que comprovadamente funcionam muito melhor do que a mera exposição. O que nos falta é iniciativa. Quando esta iniciativa não mais faltar, teremos mais um importante motivo para comemorar o dia 28 de abril.




Notícia publicada pelo site da ABMES, no dia 2 de maio de 2019, no endereço eletrônico https://blog.abmes.org.br/?p=15322


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