Sobre Humanas e Exatas

O Globo • 29 de abril de 2019

Por: Antônio Gois

Se você possui um Iphone ou outro aparelho da Apple, vai encontrar no verso, em letras bem miudinhas, a seguinte frase: “Projetado pela Apple na Califórnia, Montado na China”. Os trabalhadores americanos certamente gostariam que toda a cadeia de produção da empresa fundada por Steve Jobs estivesse no país. Ainda assim, a maior parte do lucro com as vendas bilionárias desses dispositivos fica no Estados Unidos. E isso tem muito a ver com o fato de as universidades americanas concentrarem o maior volume de pesquisas em tecnologia de ponta.

A liderança das instituições de ensino americanas em todos os rankings globais universitários contrasta com o desempenho ruim dos jovens daquele país em testes internacionais de aprendizagem na educação básica. Nessas avaliações - que medem o conhecimento de estudantes da educação básica em linguagem, ciências e matemática – o destaque é principalmente para territórios asiáticos, como Singapura, Hong Kong, Japão, Coreia do Sul e Xangai (na China, apenas as províncias mais ricas participam desses exames).

O que explica que a liderança asiática em testes de aprendizagem não se reproduza no ensino superior? Uma das razões identificadas por autoridades educacionais dessas próprias nações é a necessidade de desenvolver outras habilidades nos alunos, como o pensamento crítico, a criatividade e a comunicação. É nesse sentido que caminham, por exemplo, as políticas educacionais de Singapura e Xangai.

Não é de hoje que americanos se preocupam com o baixo desempenho de seus jovens na educação básica. Em 1983, um famoso e controverso relatórioencomendado pelo governo Reagan alertava que a “nação estava em risco” por não conseguir garantir a formação de uma mão de obra competitiva para o mercado de trabalho. Uma das respostas das políticas educacionais americanas a esse diagnóstico foi o maior incentivo às carreiras STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A tentativa de copiar o modelo asiático, porém, foi depois criticada justamente por ignorar que a criatividade, inovação e o pensamento crítico eram elementos fundamentais do sucesso da economia americana. Esse movimento se traduziu na ampliação do conceito STEM para STEAM, com a letra “A” representando justamente a valorização do ensino de artes e humanidades.

As cinco empresas mais valiosas do mundo são Amazon, Google, Apple, Facebook e Microsoft, todas gigantes tecnológicas americanas. Não é coincidência o fato de os Estados Unidos liderarem tanto este ranking quanto o de melhores universidades. Das dez instituições de ensino mais bem avaliadas pelos critérios do Center for World University Rankings, oito são americanas e duas britânicas. São, pela ordem: Harvard, Stanford, MIT, Cambridge, Oxford, Berkeley, Princeton, Columbia, Instituto de Tecnologia da Califórnia e Chicago. Há várias razões para estarem nessa lista, mas vale atentar para um detalhe: todas, sem exceção, mantêm departamentos de Filosofia ou Sociologia.







Notícia publicada pelo O Globo, às 4h30, no dia 29 de abril de 2019, no endereço eletrônico https://blogs.oglobo.globo.com/antonio-gois/post/sobre-humanas-e-exatas.html


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