Sensibilidade ganha novo espaço nos cursos de MBA

Valor Econômico • 04 de abril de 2019

Por Emma Jacobs

Passa um pouco das 8h de sábado, hora do café da manhã ou de estar dormindo. Mas no centro de Londres mais de 100 estudantes estão reunidos para falar de si mesmos. Isso pode não ser um esforço tão grande para um grupo de estudantes de MBA altamente ambiciosos. Mas a aula de "dinâmicas interpessoais" da London Business School (LBS) não é sobre narcisismo desenfreado. Na verdade, ela encoraja os participantes a desenvolver o autoconhecimento, praticar a plena atenção por meio do "mindfulness" e lidar com conversas difíceis no trabalho.

Diante da plateia, em um auditório subterrâneo, está o professor de comportamento organizacional Richard Jolly, que observa ironicamente que os alunos poderão achar a chegada de um monge budista, mais tarde, desafiadora. "Alguns de vocês poderão pensar que isso é bobagem de vegetariano", diz. Mas ele implora que os alunos façam um esforço. Afinal, "ele já era monge budista antes de isso virar moda." É uma plateia difícil. Mais adiante, ele pergunta novamente. "Alguma reação? Acham que isso é bobagem excêntrica?"

A aula, uma mistura de teoria e exercício em grupo, trata de primeiras impressões. "A maioria de nós se acha bastante consciente", afirma Jolly. "Se você possui autoconhecimento, isso ajuda você a lidar consigo mesmo. O autocontrole emocional é importante no desenvolvimento das relações." O encontro trata do problema sintetizado pelo psicólogo social David A. Kenny, que diz que as pessoas geralmente têm "pouca percepção de como são vistas pelos outros". A primeira tarefa para os alunos é encontrar três adjetivos que os descrevem, seguido das descrições que um amigo e um estranho poderiam fazer deles. Divididos em grupos, fazem perguntas rápidas uns aos outros e escrevem pontos positivos e negativos sobre cada um escrevem pontos positivos e negativos sobre cada um.

A disciplina é uma resposta a um feedback recebido pelo centro de carreiras da escola. "Os recrutadores afirmam que os estudantes não têm autoconsciência, que eles são arrogantes e não prestam atenção", explica Jolly. Ele espera que as lições sirvam para algo mais do que apenas ajudar os alunos a encontrar um emprego. "Conforme você avança na carreira, tudo o que faz é cuidar de relações. Em uma reunião de conselho, você não está mexendo no Excel. Está apenas construindo relacionamentos." Esses programas refletem a percepção das escolas de negócios de que elas precisam produzir profissionais com habilidades interpessoais, além de conhecimento técnico, estratégico e financeiro. A Pesquisa Skills Gap de 2018, do "Financial Times", constatou que os empregadores preferem candidatos que, além de serem capazes de resolver problemas e priorizar tarefas, consigam trabalhar bem em equipe com uma grande variedade de pessoas e formar uma boa rede de contatos.

Warren Teichner, sócio sênior da área de recrutamento da consultoria McKinsey, diz que alguns candidatos a emprego negligenciam o valor da "comunicação, colaboração e estabelecimento de relações". Ele acrescenta: "Com frequência os candidatos se concentram no aspecto da solução de problemas da consultoria e do nosso processo seletivo". Uma vez contratados, eles precisam participar de treinamentos de comunicação, liderança e trabalho em equipe.

Adam Grant, professor de administração da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, diz que as escolas precisam ensinar habilidades interpessoais aos alunos de MBA. Não fazer isso é " ruim e provavelmente perigoso". Há muitas evidências concretas, afirma ele, de que as habilidades interpessoais "não são apenas valiosas, mas podem ser ensinadas. Temos a responsabilidade de ensinar as habilidades mais importantes".

Professora de comportamento organizacional no Insead, Jennifer Petriglieri diz que essas disciplinas proporcionam uma rara oportunidade de fazer os estudantes refletirem. "Eles anseiam por essa exploração. Normalmente eles se formaram na faculdade e correram para um emprego." Ela acrescenta que o foco em "soft skills" (um termo que ela odeia porque, para ela, elas são "as mais duras de serem aprendidas") sinaliza uma "volta às raízes" das escolas de negócios, que começaram como instituições que ensinavam gestão profissionalizante para o bem da sociedade. "Os cínicos acham que essas coisas não deveriam ser ensinadas num MBA. Mas após os 35 ou 40 anos, pode ser mais difícil desfazer hábitos ruins."

Para Jason Andrews, um engenheiro australiano de 30 anos, a disciplina da LBS tem sido reveladora. "Eu queria aprender finanças e a coisa que estou levando da LBS é o feedback pessoal. Entendo que é mais importante descobrir como liderar do que saber números." Mas nem todos acham isso. Durante a aula da LBS, uma mulher reclama que quer passar mais tempo aprendendo a gerenciar outras relações e passar menos tempo gerenciando a si mesma. Para ela, um exercício que exigia um relato de como demitir alguém "pareceu forçado".

A precursora dessa disciplina é a popular "dinâmicas interpessoais", oferecida pela Stanford Graduate School of Business. Conhecida como "sentimental", ela é ministrada há mais de quatro décadas. Os estudantes formam grupos de 12 pessoas que se reúnem por três a cinco horas todas as semanas, auxiliados por dois monitores, e debatem tópicos após leituras ou palestras curtas. Além disso, há um retiro de fim de semana com pelo menos 16 horas de trabalhos em grupo.

Quando Animesh Agrawal, de Mumbai, estava decidindo onde iria fazer seu MBA, ele pediu a opinião de ex-alunos de várias escolas de negócios. "Essa disciplina foi mencionada por todos." Isso o convenceu a se inscrever. Não era um território familiar para Agrawal, que havia cursado o Indian Institute of Technology e trabalhado com consultoria e private equity. Ele descreve pensar em emoções como aprender um novo idioma. "Em finanças, você aprende sobre o Excel e não sobre sentimentos. No início é difícil e você comete erros."

O feedback pessoal foi especialmente importante. "Na vida real, é muito difícil receber comentários específicos sobre como suas ações afetam os outros." Como resultado, ele se sente mais bem equipado para enfrenta conversas difíceis. Recentemente, convidou seu chefe para um café para discutir um problema que ele percebera que estava incomodando os dois. "É difícil imaginar que eu teria tido aquela conversa dois anos antes."

Brian Lowery, professor de dinâmicas interpessoais em Stanford, diz que o curso pode ser intenso. "A honestidade do feedback é...", ele busca a palavra certa antes de decidir por "provocativa". Os alunos se permitem ser abertos e vulneráveis de uma maneira que normalmente não fariam no trabalho, diz. Facilitadores ficam de plantão para ajudar. O curso, diz ele, é valioso porque ajuda os alunos de MBA a ser mais eficientes em suas interações com os funcionários. "Uma grande parte disso envolve o autoconhecimento e entender o impacto que você tem sobre alguém."

Outra lição importante das aulas, segundo Lowery, é não fazer suposições sobre como uma outra pessoa está se sentindo. Em outras palavras, não projetar sua própria experiência em alguém. Andy Katz-Mayfield, cofundador da empresa de produtos estéticos masculinos Harry's, formou-se em Stanford em 2011. "Venho de um contexto empresarial tradicional, trabalhei em consultoria e private equity. Eu queria fazer coisas mais leves, uma vez que minha experiência era mais técnica. Num MBA, você aprende finanças e estratégia, o que é só meia batalha ganha. Você precisa influenciar as pessoas e ter um alto grau de autoconhecimento".










Notícia publicada pelo site do Valor Econômico, às 05h00, no dia 04 de abril de 2019, no endereço eletrônico https://www.valor.com.br/carreira/6196881/sensibilidade-ganha-novo-espaco-nos-cursos-de-mba


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