O que se sabe

ABMES • 25 de janeiro de 2019

Por:Wanda Camargo

Censura é um anátema, assim como preconceito, ninguém a deseja ou pratica conscientemente, pelo menos é o que se afirma. Mas, da mesma forma que muitos “não preconceituosos” ficam sobressaltados à simples proximidade de uma pessoa diferente de seus padrões raciais ou sociais, a grande maioria dos detentores de opinião, qualquer opinião, entende lá no recôndito de seu ser que opiniões frontalmente contra as suas não deveriam ter circulação permitida. E não importa o tipo de opinião ou crença, política, religiosa, de gênero, criacionista, darwinista; os conceitos parecem arraigados a tal ponto que não podem conviver com a mínima divergência.

A censura, que tem entre seus sinônimos repreensão ou reprimenda, é reconhecida como forma de restrição tanto da liberdade quanto do conhecimento, costuma ser exercida em regimes ditatoriais e parece ser um tema perturbador ultimamente, depois de um processo de grande divisão interna atravessada pelos brasileiros nos últimos anos. Isso incomoda pelos possíveis reflexos nas atitudes, valores e livre circulação das notícias, as quais, em última análise compõem o que denominamos opinião pública.

O conceito de opinião pública ganhou força a partir do século XVIII, pela atenção aos fenômenos sociais nos quais as convicções comunitárias se formam, circulam e se estabelecem. Atualmente a diferença em relação aos séculos anteriores é bastante grande, pois as formas socialmente instituídas de debate público, as discussões sobre política, comportamentos, cultura ou negócios alteraram-se bastante pelo predomínio dos grandes meios, recursos e linguagens das comunicações de massa, que reconfiguraram as crenças populares.

No entanto hoje assistimos a um possível risco de que se tornem superados os jornais impressos, e com eles uma pesquisa mais aprofundada sobre os temas e acontecimentos que teriam o condão de mudar significativamente a concepção de certas camadas da população sobre hipóteses que podem configurar, ou não, as “fake news”. Com a comunicação mediada por computadores, numa rede ilimitada e descentralizada, acessível a todos, bem-intencionados ou não, qualificados para as áreas em que opinam ou não, é indispensável reexaminar as características e propriedades do que denominamos opinião pública e censura.

A diminuição da importância da mediação do jornalismo tradicional e o pluralismo de opiniões não diminuem a dependência de cada cidadão a determinados veículos na análise do interesse público, e o número crescente de fontes alternativas não representa apenas quebra do monopólio do sistema informativo e pluralismo de ideias circulantes, mas eventualmente, em competição pelo estabelecimento de certas prioridades de agendas políticas, na influência nem sempre benéfica de robôs e entidades remuneradas para a propagação de determinadas narrativas, nem todas legitimas no interesse comunitário.

Acrescido ao fato de que a localização física do usuário é indiferente, os algoritmos conhecem nossos gostos e tendências cada vez mais completamente – ou seja, podem nos manipular à vontade, diminuindo a importância da imprensa local, e, mesmo, de forma corrupta ou militante, ignorar bloqueios e censuras à mídia estabelecidas pelo Estado. O permitido e o proibido, a recusa de submissão, a esfera pública e a privada se confundem, e a velha pergunta sobre o que é a verdade volta ao centro do debate.

Censura não representa exatamente a ausência de informação, mas a interdição dela, e um dos fatores intervenientes passa pela incapacidade de distinção entre certo e errado, entre verdadeiro e falso; o silenciado passa a ter uma materialidade histórica bastante preocupante, principalmente para aqueles que exercem funções educativas: o que se transmite às novas gerações?

O que ensinar, quais valores sobreviverão a esta avalanche de informações e contrainformações, quais teorias e princípios terão validade futura, distinção das boas normas de conduta, o que subsistirá, são preocupações constantes daqueles que gostariam de melhorias em nosso sistema educacional.





Notícia publicada pelo blog da ABMES, no dia 25 de janeiro de 2019, no endereço eletrônico https://blog.abmes.org.br/?p=14840#more-14840


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