Empreendedorismo universitário: aposte nessa ideia

Estadão • 08 de janeiro de 2019

Por: Patricia Gonçalves e Lídia Medeiros

Estudar e trabalhar são a rotina de muitos jovens no ensino superior. A jornada dupla requer esforço, dedicação e certa dose de perseverança. Oriundos quase que majoritariamente de escolas publicas, normalmente são os primeiros da família a chegar à universidade. Portanto, rompem uma importante fronteira em busca de uma melhor colocação no mercado de trabalho e iniciam a construção de suas carreiras profissionais. É na educação que essas famílias e seus jovens depositam suas esperanças de um futuro melhor que de seus pais.

Isso graças a um conjunto de disposições individuais, isto é, aquilo que foi incorporado a partir do seu processo de socialização e que, supostamente, passou a orientar esses jovens em suas ações subsequentes. Assim as experiências de socialização mais ou menos precoces, intensas, regulares e diversificadas, ajudariam os indivíduos a incorporar um conjunto de predisposições mais ou menos fortes, duradouras, transferíveis e coerentes entre si que conduziriam os mesmos a diferenciadas trajetórias no âmbito profissional.

Portanto, ações, pensamentos e sentimentos como resultados objetivos de princípios herdados de contextos sociais e familiares que permitem ao jovem ter um conjunto de variáveis impulsionadoras de objetivos de vida e profissionais, tais como, disposições de autossuperação traduzidas na aprendizagem da experiência, na projeção dos filhos para ascensão, na construção de imagens positivas e na ética moral da família nuclear como base de exemplo de vida. Como também a disposição econômica calcada no consumo reprimido, na poupança, na conduta ascética, na resiliência ao trabalho e na crença em sua iniciativa prática, mesmo diante de situações adversas.

E, mais, certo acúmulo de capital educacional e cultural, mesmo que deficitário, mas sempre estimulado no seio familiar.

A flexibilização do trabalho e a competição cada vez maior por um número reduzido de vagas nas posições mais qualificadas têm levado um número cada vez mais significativo de indivíduos a buscar o empreendedorismo como opção de carreira. A vida universitária se torna, também, lócus para o estabelecimento de relações sociais e de sociabilidade. Diante deste quadro, alguns estudantes vêm buscando, ao longo dos últimos anos, transformar suas batalhas e dificuldades cotidianas em oportunidades para a realização de suas metas profissionais sob um enfoque empreendedor.

As experiências e o incentivo familiar, ou até mesmo sua ausência, se tornam fundamentais na vida destes jovens de camadas populares, pois contribuem para formar neles um senso de autonomia e de busca de alternativas que ultrapassassem as opções de mercado disponíveis, ou em certos momentos escassas.

Fica claro o foco em vencer obstáculos e dificuldades no plano pessoal e profissional, a fim de construir uma carreira promissora e próspera, não apenas para eles mesmos, mas também para aqueles que eles podem impactar, seja sob o ponto de vista financeiro ou simbólico, principalmente a própria família.

Uma origem difícil, desemprego, dificuldades na consecução de projetos, os motivos e as disposições acionadas para trilhar a rota do empreendedorismo são distintas, mas a reativação do passado como estratégia está presente, seja no desejo de romper completamente com um passado de ausências ou revivendo as trajetórias de empreendedorismo tentadas por familiares anteriormente.

As disposições mais recentes também são importantes para estes jovens na decisão que tomaram de se lançarem no mercado de forma independente, colocando seus projetos em funcionamento. E neste caso, o ensino superior e a vivência universitária – contato com colegas empreendedores, incentivo de professores – como um despertar para a real possibilidade de transformar suas paixões, inquietações e planos profissionais em empreendimentos.

A universidade torna-se um espaço de descoberta e abertura de horizontes, onde encontram pessoas que reconhecem os problemas apontados por eles como reais, onde tem contato com outros que enfrentam as mesmas dificuldades e lutas e, ainda assim, empreendem e onde tem oportunidade de apresentarem e validarem suas ideias. Funcionando ao mesmo tempo num local de aquisição de novas disposições, como a qualificação profissional e saberes específicos em suas áreas de conhecimento.

A superação de uma origem social, em que os pais não dispuseram de oportunidades para investir em si mesmos e através de lutas, batalhas e sacrifícios, têm experimentado uma mobilidade significativa para esses jovens, tanto sob o ponto de vista acadêmico, quanto profissional.

Dessa forma, a visão de futuro da carreira profissional e a permanência ou não do empreendedorismo como opção de carreira são pertinentes na construção do risco e do otimismo em relação ao que está por vir na realidade e nas escolhas desses jovens universitários de camadas populares.

*As professoras Patricia Gonçalves, do curso de Administração da UNISUAM, e Lídia Medeiros, do curso de Serviço Social da UNISUAM, foram premiadas no IX ENEC – Encontro Nacional de Estudos do Consumo no dia 23/11/2018 com o artigo A Construção da Subjetividade do Jovem em Relação ao Empreendedorismo e Novas Perspectivas de Trabalho considerado o melhor paper do GT “Consumo, inclusão social e novas subjetividades”











Notícia publicada pelo site do Estadão, às 04h30, no dia 08 de janeiro de 2019, no endereço eletrônico https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/empreendedorismo-universitario-aposte-nessa-ideia/


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