Empresas devem estimular o debate

Valor Econômico • 30 de outubro de 2018

Por Katia Simões

Nove anos. Essa é a média de tempo entre alguém publicar um desafio científico e a comprovação da tese. O mesmo ocorre com as inovações no mercado corporativo. Nessa linha, de década em década a sociedade é surpreendida por tecnologias até então inimagináveis, as quais poderão ou não ganhar o mercado. "As transformações mais importantes estão sendo desenvolvidas diante dos nossos olhos e nós nem percebemos", afirma o professor israelense David Passig, PHD em estudos futuros e autor de best sellers, como "O Código do Futuro" e "2048".
Exemplos não faltam. A biologia sintética, o turismo espacial e dispositivos capazes de mapear toda a fisiologia do ser humano são alguns dos avanços tecnológicos que estão mais próximos da realidade do que parece.
De acordo com o especialista, o pensamento futuro serve para entender o presente da melhor forma e, consequentemente, o passado. "Essa compreensão somada à adesão de novas tecnologias contribui para a melhoria dos negócios e das empresas", diz. "Com a metodologia certa é possível antecipar o futuro que, na maioria das vezes, será bem diferente do que possamos imaginar."
Membro do Conselho Nacional Israelense para Pesquisa e Desenvolvimento, Passig esteve no Brasil pela primeira vez este mês, para participar da 18ª Convenção ABF do Franchising, em na Ilha de Comandatuba (BA), quando falou com exclusividade ao Valor.
Valor: Muito se fala de inovação e as startups estão aí para acelerar esse processo. Quanto do que é projetado hoje fará realmente parte do cotidiano das pessoas?
David Passig: A inovação é um processo de cauda longa. Entre ter a ideia e chegar ao pico da tecnologia aplicada, receber investimento e ganhar o mercado leva-se entre 10 e 15 anos. Apenas 3% das inovações propostas atingem o pico e, dessas, cerca de 30% vingam e podem gerar outras inovações a partir dos seus estudos. Quando chegam ao pico, permanecem
em alta entre três e cinco anos. Nessa fase, começam a se tornar obsoletas em detrimento de novas tecnologias que começam a aparecer. Vale observar que inovação permanece na esfera da academia e dos centros de pesquisa por mais de uma década até atingir o pico, para, então, adentrar o ambiente de negócio. É um caminho longo e árduo. Um bom exemplo são as lâmpadas incandescentes. Na sequência do seu lançamento, veio a lâmpada fluorescente, a halógena até chegar à lâmpada de LED. Enquanto estava na fase de pesquisa e desenvolvimento, o LED tinha apenas como foco a iluminação. Quando chegou ao pico, começou a ganhar outras aplicações em TVs, relógios inteligentes e celulares.
Valor: Qual o maior desafio de países emergentes como o Brasil para desenvolver inovação com os pés na realidade?
Passig: Muitos. Mas começa pelo maior deles, que é investir em saúde e educação. Sem saúde e sem educação não há criatividade. Em Israel, por exemplo, o tratamento dentário é gratuito até os 18 anos. A solução de problemas básicos na infância é o primeiro estágio da criatividade e, consequentemente, do incentivo à inovação. Não se trata de um programa social, mas, sim, de programa de governo.
Valor: Israel tem um pequeno território, milhares de anos de história e se tornou uma referência em tecnologia e inovação para o mundo. O que tem a ensinar para o Brasil?
Passig: Sem dúvida, a cultura do debate é um diferencial importante. Debate-se constantemente, não se aceita a autoridade pela autoridade. Os negócios precisam ter a cultura do debate. É preciso se libertar para quebrar a autoridade. Isso não é fácil. Em Israel, não importa se a conversa é com o presidente, o general do exército, o pesquisador, todos sempre fazem muitas
perguntas. Tudo eles questionam. Não ter medo de questionar é um caminho para a inovação, porque sem perguntas a inovação não se desenvolve. Governos autoritários não fazem bem para a inovação. Sem questionamento não há criatividade, sem criatividade não há inovação.
Valor: O que caracteriza o ambiente de startups de Israel e no que difere do ambiente americano?
Passig: As startups americanas têm como 'drive' o sonho de ficar ricas. A orientação é econômica, financeira. O ecossistema baseia-se no trabalho em equipe, na busca pelo sucesso financeiro. Já em Israel, o 'drive' é a necessidade de sobrevivência. A criatividade nasce da necessidade, que é a mãe da inovação. O ecossistema israelense é rico em quebrar paradigmas.
Eles adoram quebrar regras, isso é um comportamento típico dos judeus. Tem um ditado, que eu não sei exatamente de quem é, que diz: nos negócios, temos de pensar como judeu e agir como um cavalheiro inglês. É isso que fazem em Israel.
Valor: Como Israel atrai bons cérebros para suas pesquisas?
Passig: Pelo contrário, Israel não está atraindo, está perdendo suas cabeças pensantes para outros centros de inovação. Por ser um país muito pequeno, não oferece grandes oportunidades como os Estados Unidos, por exemplo. Gigantes internacionais como Microsoft, Apple, Cisco vão a Israel em busca de nossos talentos. Oferecem salários milionários, que lá essas pessoas não receberiam.
Valor: Na sua opinião, qual a composição ideal de um bom ecossistema de inovação?
Passig: Eles devem ter em comum o fato de levar a inovação, o conhecimento da academia para o mercado. É essencial que tenha a cadeia completa, desde a pesquisa até o uso final do produto ou da tecnologia. Se um ou dois elos são perdidos é possível encontrá-los em outro lugar, mas se muitos ou praticamente todos são perdidos, aí não há inovação. A academia
não pode ditar o que o mercado deve fazer e vice-versa, ambos têm de trabalhar junto. É a academia pensando no que o mercado demanda e o mercado, por sua vez, buscando na academia a solução para seus problemas. A academia é a base da criação, enquanto o mercado, as empresas, pagam pelo seu desenvolvimento.
Valor: Que grandes movimentos terão maior impacto na vida das pessoas no curto prazo?
Passig: A predominância da população masculina, o envelhecimento da população e a queda da taxa de fertilidade são tendências importantes, que no presente devem ser acompanhadas. A partir dessas premissas surgirão novas inovações e, consequentemente, novos negócios. A taxa de fertilidade chama muito a atenção, porque o mundo precisa de gente jovem para pensar a criatividade. A taxa ideal de fertilidade seria de mais de 2,1 filhos por mulher, com boa educação, boa saúde. Se o Brasil perder população jovem será uma catástrofe - a taxa de fertilidade no país era de 1,7 em 2016. Ou seja, estamos envelhecendo e teremos poucos jovens no decorrer do século. Triplicaremos a expectativa de vida do ser humano em apenas 30 anos. Falo de fatos e não de tendências. Para antecipar o futuro diante dessa realidade é preciso identificar o que é mais importante, o que efetivamente impactará a sociedade e trará retorno, no lugar de investir em ações não eficientes. Nem sempre isso demanda muito dinheiro.











Notícia publicada pelo site da Valor Econômico, às 05h00, no 30 outubro de 2018, no endereço eletrônico https://www.valor.com.br/carreira/5957649/empresas-devem-estimular-o-debate


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