O contexto cultural e antropológico da discussão da imagem do futuro

ABMES • 25 de julho de 2018

Por: Lioudmila Batourina e Janguiê Diniz

A 10ª Cúpula do BRICS (25 a 27 de julho de 2018), que reuniu os líderes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul em Johannesburgo, foi realizada em um momento de profundas incertezas sobre o futuro da ordem econômica global e sobre a capacidade de o Ocidente continuar definindo a agenda de assuntos internacionais, o que cria a oportunidade para os BRICS assumirem um papel mais proeminente. As reuniões dos ministros, incluindo da Educação, foram encontros satélites da Cúpula dos líderes políticos.

Isso marca uma grande mudança. Na última década, os críticos dos BRICS têm repetidamente apontado para as muitas diferenças e discordâncias econômicas, culturais e políticas entre seus países-membros para argumentar que suas diferentes visões de mundo tornam improvável uma cooperação significativa. No entanto, “as divisões geopolíticas no Ocidente podem dar aos BRICS uma chance de aumentar sua influência”. (Oliver Stuenkel, Brazil Monitor, 2018)

Nesse contexto, gostaríamos de apresentar uma pequena parte da nossa pesquisa que foi submetida à Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (RBEP, e-ISSN: 2176-6681): “Internacionalização como produto de unidade e de luta de opostos”. Nela, discutimos os aspectos em comum existentes entre os países do BRICS e quais questões fundamentais eles suscitam hoje.

Pêndulo

No final do século XX, os globalistas estavam prontos para celebrar sua vitória. Mas, após algumas décadas de centralização na Europa, começamos a ver os sinais de renascimento da identidade nacional, acompanhado da desaceleração do pêndulo da globalização e até de alguns movimentos de retorno. São movimentos como o Brexit, iniciados a partir de desentendimentos dos países europeus para delegar a decisão das questões política e econômica ao governo europeu. Na educação, os governos começam a focar nos interesses nacionais e locais por meio de medidas que dão vantagens aos estudantes nativos.

Portanto, se a globalização não acabou, foi claramente transformada em outra coisa. Os problemas são diferentes em cada país. As nações do BRICS, por exemplo, que declararam a multipolaridade do mundo, estão sendo duramente criticadas por suposto antiocidentalismo. Mas, na criação da imagem do futuro, em geral, as coordenadas “Oeste/Não-Oeste” parecem antiquadas.

O mundo está mudando e a turbulência na esfera da geopolítica reflete em mudanças muito mais sérias na vida de toda a humanidade. Até mesmo temas tão relevantes como a prevenção de guerras, o futuro da economia global, a luta contra a desigualdade, desequilíbrios demográficos e migratórios e o conflito entre tradição e pós-modernismo são apenas segmentos desta turbulência.

À primeira vista, o contexto cultural e antropológico da discussão da imagem do futuro não parece necessária – palavras sobre igualdade, liberdade e direitos estão em todas as constituições e programas políticos de todos os continentes. No entanto, se olhamos para o desenvolvimento de tecnologias modernas no campo da biologia, sociologia, comunicações, inteligência artificial e outras, fica claro que todos esses “valores centrais” não são tão evidentes.

Hoje, é necessário um “reset” nos significados mais básicos, mas não nos geopolíticos. As pessoas, como seres humanos, precisam de valores. Não é à toa que o termo “valores europeus” foi percebido como um argumento sério na política internacional nos últimos dez anos. No entanto, agora a sociedade exige uma explicação de como os “valores europeus” diferem dos princípios básicos.

Evandro de Carvalho, professor brasileiro de Direito Internacional, observou que, hoje, qualquer fenômeno é considerado do ponto de vista da obtenção de lucro, mas, ao mesmo tempo, esquecemos das coisas fundamentais associadas à existência do homem. É hora de lembrar delas, acredita o cientista, porque basta olhar em volta para ver como os princípios da globalização moderna são caóticos. (Carvalho, Ervando M. Les risques liés à l? élargissement des BRICS. Revue Hermès, v. 79, p. 183-191, 2017)

Por exemplo, a globalização com sua desigualdade. Enquanto a economia mundial continua a ser uma corrida sem fim para a “minimização de custos”, ou seja, para mão-de-obra mais barata e para a onipresente redução dos gastos sociais do Estado, regiões inteiras são formadas, condenadas à degradação, e o resultado – migração em massa – empobrece ainda mais o seu potencial de desenvolvimento.

No mundo, há uma enorme camada de pessoas condenadas a viver como “semiescravos”, fora de casa e longe das famílias, desestabilizando os sistemas de proteção social dos receptores. Os cidadãos dos países prósperos também se tornam “um lastro desnecessário”, onde cada vez mais parte dos empregos é dada à força de trabalho importada e, no futuro, eles planejam robôs, excluindo o trabalho do homem. O problema da migração deve ser visto não do ângulo de vantagens e desvantagens econômicas, mas do ponto de vista das suas causas e consequências para as pessoas que são apenas parte de um fluxo impessoal de recursos humanos.

Problemas de inteligência artificial, migração, família e taxa de natalidade, controle total e verificação do fluxo de informação são unidos não pela política, geopolítica ou economia, mas pelo fato de que todos eles lidam com questões básicas para qualquer pessoa.

É provável que uma forma intermediária de internacionalização, entre globalização e nacionalização da cooperação, na educação seja a cooperação regional. Contudo, cada vez o termo “regionalismo” será repensado dependendo da geografia, interesses nacionais, financiamento etc., fazendo com que países de uma mesma região sejam percebidos como concorrentes, em vez de parceiros.

Aproximadamente vinte anos atrás, quando percebemos a globalização como realidade, os defensores dos mercados locais criaram o termo “glocal” como um derivado de “global + local”. Atualmente, quando se trata de educação, esse termo adquire valor adicional. O ensino superior deve adaptar-se às necessidades regionais e, ao mesmo tempo, ser competitivo a nível global, trabalhando em parceria com outras universidades. Em outras palavras, deve ser “glocal”.

Sendo assim, o mais provável é que o futuro modelo universitário seja um hub onde os parceiros se reúnem. Assim, nem todas as universidades devem ser especialistas em todos os campos, mas o centro fornecerá educação móvel enquanto os alunos receberão a educação necessária nos campi universitários com o melhor corpo docente em disciplinas específicas.

Os programas modernos de internacionalização estão caminhando seriamente para esse esquema. Esta forma de internacionalização não minimiza o papel do elemento nacional, pois servirá como uma ferramenta para obter o conhecimento e as habilidades necessárias para as comunidades locais. A internacionalização, em muitas políticas nacionais, deve ser vista principalmente como um esquema para servir aos interesses nacionais – capacitação, recrutamento de talentos, geração de renda, segurança nacional e assim por diante.










Notícia publicada pelo site da ABMES, no dia 25 de julho de 2018, no endereço eletrônico https://blog.abmes.org.br/?p=14221


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