Desprestígio

. • 23 de julho de 2018

Por: Antônio Gois

Livro mostra razões históricas para a perda de atratividade da carreira docente na América Latina no século passado

Por que o prestígio da carreira docente foi perdido, e o que fazer para recuperá-lo? Essas questões são abordadas no livro “Profisión: Profesor en América Latina”, recém-lançado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. Escrita em espanhol pelos pesquisadores Gregory Elacqua, Diana Hincapié, Emiliana Vegas e Mariana Alfonso, a publicação lista em sua primeira parte duas principais razões históricas para a perda de atratividade do magistério no século passado: o crescimento significativo das matrículas e o aumento da participação feminina em carreiras de maior remuneração.
No primeiro caso, o livro destaca que, especialmente entre as décadas de 50 e 80, os países latinoamericanos vivenciaram um crescimento demográfico acelerado, causado pelas ainda altas taxas de fecundidade e pela queda na mortalidade infantil. Havia um número exponencialmente maior de crianças e jovens a serem atendidos, mas, mesmo assim, entre 1950 e 1990, a proporção de jovens latino-americanos matriculados no ensino médio, por exemplo, passou de 6% para 43%.

No entanto, para atender a demanda crescente, os governos optaram por afrouxar exigências para oferta de cursos de formação de professores e procuraram utilizar ao máximo a infraestrutura já existente, fazendo com que, em alguns casos, as escolas trabalhassem em até três turnos. A precarização das condições de trabalho foi agravada com a crise da dívida externa dos países da região na década de 80, que levou os governos a cortar gastos públicos, afetando os salários dos docentes.
“Assim, a expansão da escolarização, que foi um dos grandes êxitos da América Latina nas últimas décadas, também trouxe consigo um menor interesse dos jovens mais talentosos em virarem professores”, afirmam os autores no livro.
A segunda razão citada pelos autores para explicar a perda de atratividade da carreira docente foi causada por uma boa notícia: a ampliação do mercado de trabalho para as mulheres, a partir da segunda metade do século passado. Por ser entendida como uma profissão associada ao cuidado de crianças, a participação feminina no magistério era não apenas aceita, mas inclusive incentivada em políticas públicas. Domingo Sarmiento (1811-1888), presidente argentino que foi fundamental para a expansão do ensino público naquele país, defendia em 1858 que “a política educativa será menos cara com ajuda das mulheres”. No Chile, em 1873, um documento público do ministério da Educação também argumentava que a participação feminina no magistério diminuía “a necessidade de impor graves prejuízos ao erário”. No Brasil, um decreto de 1943 chegou a proibir a entrada de homens no tradicional Instituto de Educação.
Como a sociedade entendia que cabia ao homem o papel de provedor principal, havia menor pressão para pagar melhores salários, pois a renda feminina seria apenas complementar a de seus maridos. Ao mesmo tempo, mulheres que quisessem trabalhar numa profissão não-manual não tinham escolhas. Quando, felizmente, elas passaram a ter acesso a outras carreiras universitárias, o resultado foi que muitas jovens talentosas deixaram de ser atraídas para o magistério.
Na segunda parte do livro, os autores listam uma série de ações para recuperar a atratividade do magistério. O fato de o número de nascimentos estar já em queda em vários países da região facilita a tarefa de melhorar os salários, formação, e condições de trabalho dos professores. Desde, claro, que isso não seja utilizado como pretexto para diminuir investimentos no setor.
O livro pode ser baixado gratuitamente em PDF neste link




Notícia publicada pelo site O Globo, às 06h00, no dia 23 de julho de 2018, no endereço eletrônico https://blogs.oglobo.globo.com/antonio-gois/post/desprestigio.html


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