Custos baixos e desafio cultural levam 500 brasileiros a buscarem diploma de medicina na Rússia

G1 • 25 de junho de 2018

Curso mais barato e facilidade de vagas é atrativo para brasileiros. Diferenças culturais são principais problemas de adaptação.

É clichê, mas Kursk, cidade localizada a 500 km de Moscou, já pode ser chamada de um pedacinho de Brasil na Rússia. Atualmente, a cidade universitária tem cerca de 350 brasileiros estudando medicina, conta Carolina Tellez, diretora da Aliança Russa, instituição de ensino que media intercâmbios estudantis entre Brasil e Rússia.

A ideia, segundo Carolina, é mostrar para os brasileiros como é a Rússia realmente.

"Hoje em dia, você pergunta para os pais e candidatos o que eles sabem da Rússia e eles dizem ‘que faz muito frio!’. Mas no verão faz muito calor, por exemplo. Então a Rússia procura se dar a conhecer. O melhor da Rússia são a educação, a cultura e a tecnologia. É isso que eles querem que as pessoas conheçam", explica.

Nos 12 anos de trabalho da instituição, mais de mil brasileiros já foram estudar na Rússia. Nos últimos anos, houve um aumento de 20% na procura por vagas, especialmente de medicina. Segundo a embaixada do Brasil na Rússia, são 600 estudantes brasileiros no país e 500 estudam medicina.

O curso em Kursk é oferecido em inglês e garante um diploma aceito em toda Europa. Além disso, com tantos brasileiros, a adaptação por lá tem ficado cada vez mais fácil.

A cantina da universidade já teve até coxinha para alegrar os brasileiros, conta Tábata Leduc, uma das estudantes brasileiras de Kursk. Hoje, a comida brasileira fica por conta de um restaurante próximo.

"Em Kursk tem até restaurante brasileiro. Eles passam o natal e o ano novo lá. E eles são muito unidos. Esta universidade forma hoje por semestre cerca de 30 médicos brasileiros", diz Carolina.

Mas nem sempre foi assim. Cauana Cristina de Souza, de 24 anos, está no sexto ano de medicina na Universidade Estatal de Kursk e viveu tempos mais "frios": "A medicina é difícil em qualquer lugar do mundo, mas além de você ter que se preocupar com a sua faculdade, você precisa se adaptar ao local. A dificuldade é mais no quesito de adaptação e da pessoa ficar bem com ela mesma porque psicologicamente é muito difícil estar sozinho e com saudade", lembra.


(Foto: Arquivo Pessoal)
Cauana Souza posa na neve com seus companheiros de turma em Kursk


Há um ano na universidade, Tábata não teve grandes problemas de adaptação à nova casa. Diferente mesmo é o método de ensino: "Quando chegamos aqui, nos deparamos com outra maneira de se organizar, de cobrar conteúdo, enfim.. daí tem gente que desiste porque não consegue entender que estamos vivendo coisas diferentes".

Em Kursk, o aluno se prepara para as aulas em casa e tira dúvidas do conteúdo com os professores em sala. As aulas acontecem de segunda a sábado e o professor é uma figura muito respeitada: "Na aula, a gente tem que ficar em pé em respeito ao professor e só senta quando ele permite. Eu nunca tinha visto isso antes de vir para cá", conta Cauana.


(Foto: Arquivo Pessoal)
Tábata Leduc estuda medicina em Kursk: método de ensino diferente

Facilidades

O curso de medicina em Kursk é mais barato do que em faculdades particulares no Brasil e não há vestibular. Os alunos passam por um processo de entrevistas.

"Eu tentei medicina por alguns anos no Brasil e cheguei ao meu máximo. Não queria mais aquela vida de vestibulanda que temos que enfrentar no Brasil. Foi quando pensei em estudar fora, o que já era uma vontade", conta Tábata.


(Foto: Arquivo Pessoal)
Tábata Leduc estuda medicina em Kursk na Rússia depois de várias tentativas de vestibular no Brasil

Em cidades universitárias como Kursk, os estudantes pagam cerca de R$ 10 mil por semestre e moram em apartamentos com até três estudantes. Os gastos com alimentação e moradia custam aproximadamente R$800 por mês.

"O que custa aqui (no Brasil) por mês, lá custa por semestre. Ganhando diploma europeu com uma quantidade de carga horária aceita no Brasil", diz Carolina.

Revalida

Apesar das facilidades, ao retornar ao Brasil os alunos precisam fazer o Revalida, Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituições de Educação Superior Estrangeira. Em Kursk, a carga horária do curso de medicina é de 11300 horas, mais dos que as 7200 exigidas no Brasil.

"Os alunos que vêm de lá não precisam fazer matéria substitutiva. Só precisam apresentar os documentos, que a maioria das universidades de lá já entregam em português. Hoje, mais de 60% dos alunos são aprovados na primeira tentativa do Revalida", diz Carolina.

Segundo o Inep, eles não têm registro de quantos brasileiros com diplomas russos fizeram o Revalida nos últimos anos. Em 2016, 37,4% dos brasileiros foram aprovados na primeira etapa do Revalida e 75,9% na segunda.

A volta para casa

Quem conclui o curso na Rússia não costuma ficar por lá. Carolina explica que não há falta de mão de obra médica na Rússia e ter mão de obra estrangeira não é uma das intenções do programa. Além disso, depois de seis anos longe, muitos querem voltar ao seu país de origem.

"Gostaria muito de voltar para trabalhar no Brasil. Como eu me formo em janeiro, pretendo voltar em janeiro mesmo. Não logo depois da formatura porque os documentos demoram um pouco para ficar prontos, mas assim que puder", diz Cauana, que não se acostumou com a saudade da família.

Diego Marques estudou na Rússia entre 2005 e 2012 e não teve problemas para revalidar seu diploma ao voltar para o Brasil: "Estudei com afinco por mais ou menos 9 meses (umas 8-10 horas/dia) com mais três amigos. Todos nós conseguimos passar na prova teórica e prática na primeira tentativa", conta.

Hoje, ele trabalha no Hospital Israelita Albert Einstein na área de responsabilidade social e conta que o diploma russo nunca foi uma barreira na hora de conseguir trabalho: "As pessoas não perguntam onde você se formou logo de cara. Acho que um bom trabalho vence esse tipo de barreira que pode surgir".


(Foto: Cauana Souza/Arquivo Pessoal)
Turma de brasileiros em Kursk tem até "trote"















Notícia publicada pelo G1, às 06h00, no dia 24/06/2018, no endereço eletrônico https://g1.globo.com/educacao/noticia/custos-baixos-e-desafio-cultural-levam-500-brasileiros-a-buscarem-diploma-de-medicina-na-russia.ghtml


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