O protagonismo da Universidade Stanford no Vale do Silício

ABMES • 20 de junho de 2018

Por Jacir J. Venturi

A Universidade de Stanford iniciou as atividades letivas em 1891, num legado do casal Leland e Jane Stanford à memória de seu filho único, que faleceu com apenas 15 anos de febre tifoide quando passavam férias em Florença, na Itália. Leland Stanford, empresário, senador e governador da Califórnia, dedicou a essa empreitada parte de sua fortuna, adquirida como um dos big four construtores de ferrovias dos EUA, inclusive parte da fazenda onde residia o casal, em Palo Alto, hoje com área de 3.310 ha.

A concepção da universidade mereceu um planejamento meticuloso de cinco anos e a participação de um dos mais conceituados arquitetos do país, que assina também o projeto do Central Park de Nova Iorque. À época, na região escolhida predominava a exploração de minas de ouro, e a Califórnia como um todo era tida como terra inóspita, de caipiras.

Nesse ecossistema tão pouco promissor e fruto dos anseios de genitores que se defrontam com galhardia a mais intensa tragédia humana – a perda de um filho –, nasce uma universidade com DNA inovador. Até então, o acesso das moças ao ensino superior era quase nulo, enquanto Stanford, desde o primeiro ano, disponibiliza as vagas para jovens de ambos os gêneros. A maioria absoluta das universidades era vinculada a credos religiosos, mas Stanford nasce laica. Por iniciativa de Jane, constroem-se alojamentos para estudantes e professores dentro do campus, inédito para a época.

Ademais, tamanho foi o zelo em contratar bons docentes e em projetar um campus faustoso que choveram estocadas – dizia-se que renomados catedráticos iriam ensinar para as belas paredes. Os fatos, para o nosso gáudio, chicotearam os críticos: 555 alunos matriculados no primeiro ano de funcionamento.

Apenas dois anos após concretizado o sonho, Leland veio a falecer, e a viúva doou quase toda a fortuna remanescente à Universidade, na época US$ 11 milhões, quantia cuja aparência nominal não representa adequadamente a expressiva cifra em valores correntes: mais de US$ 320 milhões.

Dessa academia emerge uma megaempresa com orçamento anual de US$ 7,3 bilhões, detentora de hospitais, pesquisas, patentes e ações de empresas ali incubadas ou aceleradas, sendo o ensino responsável por apenas 15% a 18% da renda bruta. As doações são igualmente significativas: US$ 1,13 bilhão/ano, com 76 mil doadores cadastrados, numa cultura muito intensa lá, quase nula cá. Alunos matriculados perfazem um total de 16.430, mais da metade em programas de especialização, mestrado e doutorado , cuja anuidade média é de US$ 69 mil.

Contíguo geograficamente à Stanford e longe de qualquer coincidência, o Vale do Silício é reconhecido como a Meca da Tecnologia. Em meio à diversidade de origens – 40% das pessoas que ali trabalham são estrangeiras de nascimento –, há uma atmosfera de bits e bytes que paradoxalmente também desperta valores humanos como competências socioemocionais, trabalho em equipe, comunicação interpessoal, transparência, etc.

Um marco histórico desse protagonismo da Universidade de Stanford sobre o Vale do Silício foi a fundação da HP, em 1939, pelos estudantes Hewlett e Packard, inicialmente uma pequena empresa de componentes eletrônicos. Desde então, nasceram nessa região nada menos que Cisco, eBay, Google, Instagram, LinkedIn, Netflix, Nike, NVIDIA, Sun Microsystems, Tesla, Yahoo. Ademais, é a instituição de ensino que detém o maior número de prêmios Nobel em todo o planeta.

Destarte, como fruto da persistente prática de uma tríplice hélice – universidade, empresa e governo – na propulsão da inovação e resolução de problemas, estima-se que 39.900 empreendimentos criados por alunos e egressos geram uma receita anual de US$ 2,02 trilhões, equivalente ao PIB brasileiro.

O que torna ainda mais estimulante o magnífico e bem conservado campus, ornamentado por dezenas de esculturas de Auguste Rodin, são as bicicletas. Sempre aceleradas (são 13 mil delas, sendo os carros proibidos), se deslocam para as bibliotecas, cantinas, alojamentos, ou de um bloco para outro. Naquela tarde ensolarada de primavera, maravilhados em visita à Stanford, testemunhamos cenas prosaicas nesse templo do saber – rapazes e moças de calções pedalando suas bikes, alegremente a se galantearem. Mas atenção nefelibatas: há casos de atropelamentos, suprema inglória para um turista ou um stanfordista…














Notícia publicada pelo portal ABMES, no dia 20/06/2018, no endereço eletrônico https://blog.abmes.org.br/?p=14028


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