MBAs ajudam alunos a navegar no caos global

Valor Econômico • 11 de fevereiro de 2019

Por Jonathan Derbyshire | Financial Times

"Nas escolas de negócios, geralmente não ensinamos geopolítica", diz Cedomir Nestorovic, professor e diretor executivo acadêmico de MBA da Essec Business School, de Cingapura. Mas em uma era de volatilidade geopolítica sem precedentes, em que suposições estabelecidas - e muitas das instituições - da ordem global do pós-guerra estão sendo questionadas, isso poderá mudar.

Para Jan-Emmanuel de Neve, da Saïd Business School, da Universidade de Oxford, a geopolítica está ficando cada vez mais importante, "tanto nas esferas do Ocidente quanto dos mercados emergentes". Neve, professor associado de economia e estratégia, não acredita que o MBA terá de ser "repensado" por causa disso, mas que ele terá de "evoluir".
Mas quais são as implicações práticas para a sala de aula? Stuart Robinson, diretor de MBA da Universidade de Exeter, do Reino Unido, diz: "O tipo de conversa que se tem hoje é diferente, portanto ensinamos coisas como o entendimento de crises financeiras. Estamos tentando fazer os estudantes entenderem o que cria esses problemas".
O professor Neve afirma que as turbulências correntes, tanto nas relações entre os Estados como dentro dos próprios Estados, no mundo desenvolvido e nos mercados em desenvolvimento, aumentaram a necessidade dos estudantes de MBA de explorar a ligação entre a política e os negócios. "Bons líderes empresariais conhecem bem as regras e normas, mas antes de mais nada os executivos têm um entendimento de como essas regras são moldadas", diz.
Cada vez mais elas também exigem um entendimento não só de como as regras são moldadas (e de como as autoridades reguladoras operam), mas também das forças que estão levando essas regas a serem reescritas ou, em alguns casos, simplesmente derrubadas.
O professor Neve admite que é "levado a pensar muito sobre as ligações entre as empresas e a política". Para ajudar os estudantes a lidar com essas questões, ele desenvolveu uma simulação de duas semanas em que eles representam os papéis de chefes de Estado, líderes corporativos e diretores de sindicatos comerciais, enquanto deliberam sobre um contrato de US$ 10 bilhões para a construção de uma nova usina de energia na Índia. "Isso permite aos estudantes entender como a dinâmica política ajuda a moldar os resultados dos negócios", diz.
No entanto, alguns profissionais acreditam que o desafio que essa nova ordem mundial apresenta para aqueles que coordenam programas de MBA é não só conceitual ou intelectual, mas também pedagógico. Por exemplo, Luigi Zingales, da Booth School of Business, da Universidade de Chicago, acredita que a noção de "risco político", um ponto central dos cursos de negócios há anos, não é mais adequada. "É meio que uma perspectiva datada pensar que os países em desenvolvimento apresentam muito risco político e que os países desenvolvidos não" diz ele
Os acontecimentos dos últimos dez anos, afirma Zingales, tornam essa visão insustentável. "Essa visão ingênua foi derrubada pela crise financeira", explica. "De repente vimos países em desenvolvimento como o Chile ou o Brasil se mostrando relativamente seguros, e os EUA e o Reino Unido, em meio a uma profunda perturbação financeira." Essas turbulências financeiras foram, é claro, seguidas por agitadas mudanças políticas no mundo desenvolvido (sem mencionar o Brasil). "A eleição de Donald Trump e o voto pelo Brexit levantaram a questão de como a política afeta os negócios", diz o professor Zingale.
Nathalie Belhoste, professora assistente da Grenoble École de Management da França, insiste que o inverso também se aplica. Ela afirma que estudantes de negócios precisam entender que as empresas também são atores políticos. "Toda vez que uma corporação entra num território, há um risco de desestabilização", diz.
Entretanto, num mercado global para o ensino de negócios em que as instituições tentam atrair alunos de todas as partes do mundo, levantar questões geopolíticas como essas pode ser uma tarefa delicada. "Fizemos suposições no passado sobre a estabilidade do Ocidente que não faríamos hoje", diz Robinson, da Exeter. "Estou muito consciente de que há vozes diferentes na sala de aula."
O professor Neve concorda. "Mais e mais alunos dos programas de MBA são russos, chineses e indianos", observa. "Mesmo assim, os modelos tradicionais de estratégia de mercado são muito orientados para os EUA e a Europa. Se você ensina esses modelos tendo 15% de alunos indianos e 10% de alunos russos e chineses, isso não é tão realista. Eles entendem de contextos em que o governo escolhe os vencedores, e não o mercado."
Os professores estão acostumados a dar aulas sobre as variações do capitalismo de mercado e as diferenças entre as economias de mercado liberais, como os EUA e o Reino Unido, e as economias sociais do norte da Europa. Mas se o professor Neve estiver certo, eles deveriam agora estar explorando também variações do capitalismo de Estado. "Você tem empresas
estatais na China. Mas como mercados emergentes como o Brasil e a Rússia fazem isso de maneira diferente?" São questões que deverão persistir por muito tempo depois que a instabilidade política diminuir.






Notícia publicada pelo sitre do Valor Econômico, âs 05h00, no dia 11 de fevereiro de 2019, no endereço eletrônico https://www.valor.com.br/carreira/6112127/mbas-ajudam-alunos-navegar-no-caos-global


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